Há quem consiga acompanhar uma partida sem torcer para nenhum time. São os cadáveres adiados. Impotentes de sentimento, passam ao largo dos turbilhões emocionais que qualquer apaixonado pela pelota experimenta diante do futebol – e, veja bem, não falamos de Copa do Mundo, de clássico: nenhum de nós passa imune à mais ordinária pelada.

O nosso subdesenvolvimento ou a nossa fundamentação cristã nos faz ter simpatia, quase sempre, pelo clube de menor estatura ou aquele que vive um momento mais duro. Tendemos a sentir uma monotonia milenar no clube vencedor – o futebolista acostumado à vitória nos parece carregar um tédio de seis séculos sobre os ombros.

Na final da Liga dos Campeões, contudo, essa lógica foi subvertida. O time pequeno, até pouco tempo atrás inexpressivo e relegado ao segundo escalão da Inglaterra e terceiro ou quarto da Europa, o Chelsea, tornou-se símbolo do que os apaixonados mais detestam no futebol moderno: a ostentação, a voz poderosa da grana, a ausência de tradições sólidas e erguidas desde a lama.

Já me manifestei, aqui mesmo, a respeito dessa tendência a desconsiderar camisas. Nenhum clube tem mais de 100 anos impunemente. Aliás, para passar a dura barreira de um século há que se ter algo de forte – seja a beleza ou a hediondez: não é por acaso que raríssimas pessoas têm esse privilégio. E o Chelsea foi fundado em 1905.

A súbita injeção de dinheiro no clube fez com que nos posicionássemos quase todos contra ele. E assim o foi na quarta-feira. Para além disso, considerou-se que torcer para o Manchester seria torcer para o futebol. Isso, justificam-se, pelo fato do clube de Ferguson praticar um jogo mais ofensivo e teoricamente de melhor qualidade. Tolices: o Chelsea tem qualidade comparável e, apesar de ter passado por situações complicadas no meio da temporada, como a troca de treinador e a liberação de um caminhão de jogadores para a Copa Africana de Nações, conseguiu terminar a Premier apenas dois pontos atrás do mágico Manchester. Com um meio-campo conduzido discretamente por Lampard e um ataque encabeçado por um Drogba não tão brilhante quanto nas temporadas anteriores, mas ainda assim decisivo, o Chelsea pode ser tranquilamente equiparado ao Manchester em qualidade futebolística.

O outro argumento seria o fato do Red Devils ter uma tradição, coisa que o Chelsea supostamente não possui – e, portanto, todo o seu prestígio recente está diretamente relacionado ao poder da grana de Abramovich. Mas e de onde vem todo o prestígio também recente do Manchester? Não pretendo dar uma de estatístico ou de idiota da objetividade, mas o clube passou mais de duas décadas sem conseguir um único título no Campeonato Inglês (de 1967 até 1993), voltando a conquistá-lo justamente quando conseguiu profissionalizar e capitalizar a sua tradição local, espalhando-a pelo planeta com uma força midiática impressionante. Desde 93, venceu o maior campeonato do país mais 10 vezes (desde o seu primeiro título, na temporada 1907/1908, até o início do jejum em 66/67, o clube vencera 7).

Há muito mais a se considerar nessa discussão. A nossa visão é sempre curta e a memória sempre escassa: em cerca de dez anos, o Manchester tornou-se unanimidade em certos aspectos. Nessa questão de tempo, o investimento e a propaganda do Chelsea são muito mais recentes e, portanto, ainda são atacados, ainda não foram totalmente digeridos. A verdade é que tanto a ascensão do Manchester quanto a provável estratificação do Chelsea como um grande clube no futuro dizem muito sobre o quanto os mecanismos e as tradições do futebol ainda podem ser maleáveis na Inglaterra e, ao contrário, o quanto isso é impossível de acontecer no Brasil.

E o que dizer da partida de quarta-feira? As análises táticas e técnicas já jorraram e todos já conhecem cada minuto passado em campo. Difícil acrescentar algo a esse respeito. O Chelsea apático do primeiro tempo transformou-se no grande time do segundo. A trave foi salvadora para o Manchester. Cristiano Ronaldo brilhava sozinho no ataque do time vermelho - Tevez e Rooney ofuscados. Goleiros fundamentais. Os gols: Ronaldo certeiro e a jogada sobrenatural que resultou no gol de Lampard (jogada que começou lenta e, subitamente, alcançou velocidade assustadora até a finalização).

Dos pênaltis, nada há que se comentar. Num esporte essencialmente injusto, a decisão por pênaltis beira a insânia – nada mais ingrato, estafante e arbitrário. Mas foi justamente nesse final que tudo alcançou níveis épicos: ao perderem as suas cobranças, Ronaldo e Terry personificavam a trágica condição humana. Exagero e explico-me – Aristóteles escreveu qualquer coisa sobre o fato de não importar idéias ou sentimentos: o destino do homem está condicionado apenas às suas ações. Ronaldo fora brilhante durante toda a temporada, mas que importaria se fosse sua a responsabilidade pela derrota final? Terry, líder e um dos grandes zagueiros do mundo, conseguiu ofuscar até mesmo o erro derradeiro e fatal de Anelka – que não possuía a grandeza de Terry e nem escorregou.

Escorregar foi fundamental. Toda a tragédia humana resume-se a isso: a grama molhada, o pé entortando, a bola espalhando a chuva e indo parar na arquibancada.