Todos sabem que Galvão Bueno é flamenguista. Assim como o mundo reconhece como falso o discurso de um Roger da vida ao chegar a um novo clube. O futebol está cheio de verdades auto-evidentes, fatos pretensamente obscuros que todos conhecem como inegáveis, óbvios. O maior deles, parece-me, é a união de jogadores para derrubar técnicos.

Tenho experiência de mais de década: desde criança, quando o Vitória começa a tropeçar grotescamente, meu pai afirma que há um complô de futebolistas. Portanto, ainda pequeno, abandonei a inocência e passei a enxergar conspirações por trás do inacreditável futebol que certos grupos ousam praticar na minha frente, de forma descarada. Não, não duvido da falta de qualidade de um esquadrão ou outro, sei que muitos são de fato terrivelmente montados e treinados, mas eu quero mesmo é falar do América.

América que acaba de vencer o Santos por um considerável (mas reversível) placar de 2 a 0. Nunca vi um time derrubar um treinador de forma tão escancarada – só faltava mesmo o Cabañas e o Sebá comemorando, por meio de patoladas, o derradeiro e fatal gol de Leo Moura, no Azteca, em frente ao banco onde Rubén Omar Romano aceitava o seu destino e esmorecia na ostensiva poltrona de reservas (retorno à poltrona porque confesso desejar uma daquelas aqui na redação do Quem é a bola?).

Naquele embate, o América foi descarado: jogava em bandos, mais ou menos como jogam os pequenos mexicanos que começam a conhecer a bola e as quatro linhas; ou como atacam e se defendem os rapazes mexicanos que, após dezenas de tequilas, começam a ter dificuldades em reconhecer a bola e para quem as quatro linhas, subitamente, ficam tortuosas, dividem-se em caleidoscópicas imagens que bailam aos seus pés. Mas Rubén Omar Romano pediu demissão. E o América eliminou o Flamengo. Aviso que me recuso a entender a derrota flamenga como conseqüência direta de uma boa atuação do América, mas era inegável a mudança de postura tática do time, que já não atacava em bandos e mantinha o seu campo defensivo um deserto onde Ochoa reinava solitário e estúpido.

Mas voltou a vencer. E complica a caminhada do Santos – com mais gols do obeso Cabañas. A gordura do atacante paraguaio não parece atrapalhá-lo, já que o homem, muitas vezes, demonstra possuir até mesmo velocidade. Sua precisão ao finalizar é espantosa. A psicologia do futebolista gordo, aliás, é um tema ainda pouco estudado, que mereceria mais atenção e que talvez a terá em outro post. Importante, por ora, é que todos reconheçam que o América derrubou um treinador, mas que evitem falar a respeito na imprensa – porque aí a maior verdade falsamente secreta e inviolada do futebol perderiam seu encanto.