A Copa de 2006 ficará marcada na Eterna História e ainda será narrada em Epopéias Gregas como um dos eventos mais pitorescos da humanidade. Ou mesmo, da não humanidade. Por outra, nem uma perseguição desastrada de um Tiranossauro Rex por um inseto pré-histórico foi tão desastrada quanto aquela Copa do Mundo. Melhor, desastrada não a Copa em si, mas a atuação da Canarinho.

As reportagens com pernas depiladas, o descompromisso, as risadas constantes, mesmo com péssimas atuações em campo, a obesidade, tudo aquilo está gravado na alma de vira-lata que alguns dos brasileiros ainda insistem em manter em homenagem àquele passado cachorro que foi nada menos que a base para todas as glórias do país. Sim, amigos, podem anotar: O Brasil só vai para frente quando nos sentimos pequenos.

O Brasil Gigante só deve fazer sentido como aspiração longínqua, quase religiosa, do contrário, se a anunciam no presente, pode escrever: Estamos enrascados, colegas.

Um dos maiores personagens da referida derrocada foi Adriano. O Imperador, aquele que dizimou a Argentina em duas partidas fulcrais (quando dizimar a Argentina parecia algo menos factível), responsáveis por aumentar em níveis colossais a crença do brasileiro em nossa esquadra, junto aos Ronaldos, foram a imagem e a semelhança dos problemas daquele time: se desleixo, doença ou diarréia não nos cabe dizer- até porque a bola já tratou o escrete com a devida reverência que então merecia.

Pois, Adriano. Desde 2006, a vida do jogador parecia uma constante derrocada. Só se falava em mulheres, carros batidos, cigarros, álcool. Já ninguém mais rememorava seus tempos de Flamengo, quando, ao garantir um título (de Copa dos Campeões ou de Estadual, já não recordo), fora estrela de reportagem lépida e faceira na Vênus Platinada, mergulhando no belo mar fluminense.

Parecia mesmo que ao título real já não fazia mais jus Adriano. E então foi ao meu São Paulo Futebol Clube, onde teria sua última chance. Ora, um Imperador jamais tem últimas chances, mas este teria, o que colocava em dúvida seu cargo. Pois então, o rapaz começou a meter gols. Não em proporções amazônicas, não em proporções devastadoras, mas ainda assim, metia seus gols. Curiosamente, os melhores jogos de Adriano foram aqueles mais difíceis: A derrota por 1 a 4 para o Palmeiras, a vitória por 2 a 1 (com seu gol de mão) e as partidas duríssimas, complicadíssimas, terroríssimas, amaríssimas da Libertadores- que culminaram num chamado do Sr. Carlos Caetano Bledorn Verri.

E então Adriano chega à quarta-feira contra o Fluminense. Sim, é preciso dizer. Os 45 primeiros minutos são-paulinos contra os tricolores cariocas foram excepcionais. Adriano esteve como há certamente dois anos nunca esteve. A disposição, o vigor, o raciocínio rápido, até uma certa malandragem, tudo aquilo de melhor que o jogador demonstrou algum dia reavivaram-se naquele período de jogo. É verdade que na etapa final o ânimo esmoreceu, não o suficiente para apagar o primeiro tempo de Adriano e do São Paulo (que aos trancos e barrancos, parece se acertar).

Jogada marcante da partida: No pique e numa trombada estupenda, Adriano empurra Roger para as grades do Morumbi. Fosse eu um juiz, certamente teria apitado e repreendido o atacante. A câmara e o comentarista da televisão mostraram-me errado. O rapaz conseguiu iludir minhas vistas. Talvez seu apelido não tenha sido tão exagerado, como é típico de nossos tempos- mas isso, só as próximas partidas irão dizer de forma clara.

No mais, é preciso dizer: O pó-de-arroz é um bom plantel. O jogo no Maracanã será equilibrado. Aguardemos.