A análise de um time nordestino é sempre tensa. Atualmente, é corriqueira a tentativa dos jornalistas de amenizar ou ignorar essa dificuldade – mas é fácil perceber o constrangimento de cada um deles, o temor de falar algo que aparentemente menospreze o clube baiano ou pernambucano porque ele sabe que, no minuto seguinte, chegará um e-mail acusando-o de bairrista e preconceituoso. Óbvio que não deveria ser assim, mas o momento atual, vejam vocês, é ideal para que se conceda, com uma bondade ímpar, a uma agremiação nordestina o título de favorito.

Na última e longa reunião de pauta do Quem é a bola? debateu-se a força do Sport e a percepção que os jornalistas de fora do Nordeste possuíam da dita cuja e se seria o caso de, num post para a História, desvendar as vicissitudes que tornaram o Brasil um país aparentemente uniforme e com uma idéia geral de nação disseminada num território extenso e muitas vezes inóspito mas que, ao mesmo tempo, vangloria-se e deslumbra-se com sua variedade cultural e sua pluralidade racial ao ponto de criar inúmeros movimentos separatistas e ódios declarados ou implícitos entre gente que nasceu mais abaixo ou mais acima num mapa que condena a todos. Desistimos: após três horas de debate a respeito de Gilberto Freyre, Euclides da Cunha, Ruy Barbosa e Muricy Ramalho, o Quem é a bola? entregou os pontos e reconheceu que o brasileiro continuará a acreditar fielmente que essa variedade é coisa única entre todas as nações, como se a França ou a Noruega fossem blocos uniformes e suas cidades e regiões indistinguíveis entre si – todo mundo de boina e tomando café ou pescando bacalhau. Essa tara regional, naturalmente, alcança os gramados onde se pratica a vigorosa arte suprema.

Senão vejamos: Grêmio e Internacional de Porto Alegre são clubes estranhos ao modelo de futebol praticado no Rio de Janeiro e em São Paulo – sendo que os dois estados centrais do país, aliás, diferenciam-se bastante: enquanto os cariocas jogam cheios da “alegria” (pode colocar aqui o adjetivo ameno de sua preferência) e desfaçatez típicas de um Romário, os paulistas são austeros, mantém a coluna ereta que tão bem definia Ademir da Guia (que, não se enganem, era carioca). O futebol nordestino, contudo, já que nunca teve uma força nacionalmente considerável, não é descrito em termos semelhantes: que semelhança há entre o Sport de 1987 e o Sport de 2008? Mas, por outro lado, que semelhança há entre o imbatível Inter dos anos 70 e o momentaneamente fracassado Inter de 2008? Alguém dirá que apenas a camisa – mas, convenhamos, alguém que escreve “apenas” referindo-se à camisa de um clube é alguém que de fato ignora o que se passa dentro de um campo de futebol.

E a camisa de qualquer time nordestino sente-se oprimida. Nunca houve e nunca haverá um time nordestino a proclamar-se ou ao menos acreditar-se favorito. Isso se trata da mais óbvia psicologia e poética do futebol: todo time tem uma identidade que guia seus jogadores a revelia do seu talento ou da sua vontade – é o que faz o Grêmio jogar sempre do mesmo modo, estejam lá Sandro Goiano ou Ronaldinho Gaúcho. É inegável, contudo, que existem oscilações dentro dessas características estratificadas em cada clube: nos últimos anos eu percebi o esmorecimento da sanha quixotesca de grandeza do Bahia, por exemplo. Assim como o Palmeiras, o temido esquadrão de verde, passou a ser motivo de piadas pelo Brasil inteiro. Contudo, essas alterações são raríssimas: ontem à noite, por exemplo, o Sport destroçou o Inter e, no vestiário, Roger afirmou coisas como “deixa que eles considerem a gente a zebra mesmo” com um sorrisinho irônico e no último domingo, Romerito deu declarações polêmicas acerca da “pequenez” do time pernambucano, garfado em nome da “grandeza” do Botafogo. Roger e Romerito são, respectivamente, paulista e goiano – mais uma prova irrefutável de como a camisa domina a mente do futebolista.

Tudo isso, claro, para afirmar que não se pode confiar em praticamente nenhuma análise feita em referência aos times sertanejos: ou o comentarista está acossado pelo politicamente correto ou é um fanfarrão e preconceituoso, um bovino que parte para agressões desnecessárias. Ao pretender estar livre de tais influências, o jornalista revela-se ou ingênuo ou potencializa as suas opiniões de maneira a fingir uma isenção, o que geralmente faz com que ele se assemelhe aos bovinos que menosprezam camisas. Como, então, considerar e especular sobre o Sport que enfrenta o Vasco na semana que vem? Com o segundo jogo em São Januário, o favoritismo do Sport diminui, mas ainda é gritante – o time é mais veloz, mais contundente e mais qualificado do que o Vasco. Mas, até aí, o Inter também era tudo isso em relação ao próprio Sport. É natural que o Imponderável e Momento apresentem-se mais constantemente em copas, mas o Quem é a bola? se nega a ignorar o óbvio ululante: o favorito ao título é nordestino, pernambucano, vixe.

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