
Contra o Cúcuta, na Colômbia, o Santos perdia uma série de gols. Kleber Pereira já desperdiçara três ou quatro chances pânicas. Foi então que, com a voz meio soturna, Escobar relembrou a frase de Muricy – afirmando, como se não bastasse a lembrança, que ela ainda estava “ecoando” (um floreio estilístico e retórico louvável num comentarista de futebol). O eco, sabe-se, é um fenômeno sonoro que serve de brincadeira às crianças e de presságio bizarro aos homens. Por ventura, o Santos venceu – mas fora tão forte a afirmação do líder sampaulino que ela continuou a reverberar no vazio…
O aforismo em questão, para aqueles que não se entregam às notícias futebolísticas do pós-jogo, foi elaborado em referência à derrota do Flamengo para o América. Segundo Muricy, o povo da gávea pensou que tudo já se resolvera no primeiro jogo – e aí, amigos, perdeu porque “a bola pune”. Três significantes: um artigo, um substantivo dissílabo e um verbo da terceira conjugação. O significado, como deve ser em toda sentença que se preze, é só um – e vem daí, dessa uniformidade, desse caráter opressor e incontornável, a sua verdade, o seu poder.
Resistir a Muricy foi um trabalho praticado por boa parte da imprensa e da torcida brasileira. Mas, na base de apenas dois títulos nacionais em dois anos, ninguém agüentou. Pergunto-me quanto tempo levará até que o discurso que proclama Luxemburgo como o grande técnico do Brasil saia de moda e decida-se dar o cargo a Ramalho. O homem, com seu ar macambúzio, quase sempre indignado com o mundo do futebol e com a idiotia que o caracteriza, como se a sua convivência nesse meio fosse uma condenação, um fardo que carrega solitário e humilde, agora passa a ter ares de profeta, oráculo, filósofo.
Metade do Quem é a bola? compara-o à figura mítica do Preto Velho – aquele que, com 114 anos de vida escrava, está sempre ao fundo da senzala, no mais profundo e escuro ermo e que, da existência cativa, tudo conhece. Assim é Muricy: da bola, não ignora nada. Aprendiz de Telê Santana, soube superá-lo. Obrigado a guiar times sem brilhantismos técnicos, soube fazê-los vitoriosos por outros meios – que, muitas vezes, são irritantes, estafantes, mas que trouxeram resultados inquestionáveis. Atualmente, cheio de tropeços e com o semblante ainda mais mal-humorado (que não deixa de ter seu lado cômico e bonachão) vai conduzindo o São Paulo vagaroso, mas a cada jogo de maneira mais contundente.
A figura de Muricy insiste para que não nos esqueçamos de uma faceta pouco ou nada lúdica, quase operária, do futebol. A partir de agora, então, essa figura ganha contornos místicos, ainda mais destacáveis – sempre que olharmos o homem de boné e barriga proeminente a mascar um chiclete à beira do campo do Morumbi, sentiremos o peso do futebol, o quanto essa arte, por mais que neguemos o óbvio, tornou-se o maior fenômeno da modernidade; e Muricy, aborrecido, nos lembrará a responsabilidade e a dignidade necessárias que daí advêm.