A festa estava programada desde a quarta-feira passada. 4 a 2 no Azteca era inacreditável demais. E o time Cósmico parecia estar de volta. Minto. A festa não estava programada desde a semana última. Desde antes, possivelmente desde o Janeiro em que o Flamengo enfrentava Macaé, Cardoso Moreira e Duque de Caxias.

“Um senhor time”. “O melhor time do Brasil”. Uma vitória sobre o Vasco e o Botafogo e pronto, o Flamengo não precisava mais jogar, era perfeito. Havia quem duvidasse, e o segundo turno do Carioca, aliado ao papelão do 0 X 3 no Parque Central mostrava que o ceticismo ainda é um humanismo. No entanto, havia sintomas de loucura. “Torozinho”, sim, esse é o dizer de um narrador da tevê ao se referir a Toró marcando gols em Cuzco. E o time voltou a jogar bem, a ponto de até encantar meio-staff do QueméaBola? (até porque a outra metade é ressentida demais com rubro-negros para se encantar com seus produtos) e de todos considerarem Joel Santana o grande treinador do Brasil no semestre. A missão estava feita, e só Caio Junior poderia atrapalhar a conquista da América. Sim, a América.

Amigos, não existe nada mais magnânimo que o Futebol. Ele não aceita soberba exagerada, nem a concupiscência da humildade. O Flamengo entrou há pouco no Maracanã para uma festa. Kléber Leite e Márcio Braga sorriam, ao passo que todos aplaudiam “Papai Joel”. Ora, a classificação para a semi-final era a dificuldade do Flamengo e a preocupação com a Vila Belmiro talvez fosse o assunto a se discutir nos ônibus a caminho do jogo.

Amigos, eu vos digo: É preciso ter calma. O Flamengo veio preparado para um rebuliço, uma alegria frenética e sua belíssima e mágica torcida só tratava de tornar o espetáculo mais agradável. Festa pronta, faltou avisar aos Turcos. Ou melhor, aos Chicanos.

Mito número 1: O Flamengo nunca perde no Maraca. 0 a 1. Penso eu: o Flamengo ganha de 3 a 1, tranqüilo. 0 a 2. Ora, é questão de tempo, um belo empate e a festa continua. A torcida ja não vibrava tanto. Cantava o hino, mas se calava por instantes. Vaiava Souza. E o jogo ia, com a torcida cantando um tanto envergonhada. O Flamengo não sabe perder no Maracanã, parece contra a natureza do clube. A derrota é como um punhal cravado no coração de milhões. O jogo ia. O jogo ia. Eis que me avisam. 0 a 3. 0 a 3. Incrível. Inacreditável. Loucura. Corro para ver o gol. Está lá, ele, o artilheiro cruel: Sobrenatural de Almeida, desviando a bola, fuzilando a meta do bom, porém falho, Bruno. Já eram 32, 33 da segunda etapa. A morte absoluta do “Mais Querido” parecia chegada.

Mito número 2: Caio Júnior há de atrapalhar o título. A certeza que todos carregavam consigo da superioridade flamenguista era tamanha que nos esquecemos todos de que havia uma partida de Futebol a ser jogada. Futebol não é vôlei, não é basquete, não é xadrez, não é peteca, não é corrida de carro. Um time pode massacrar o outro e ainda assim ser humilhado no fim. Futebol não é combate, não é compra e venda, não é algo comum. É Futebol. Em Futebol, há de se guardar certa nobreza em campo. Ainda que seja uma nobreza mulamba, uma nobreza gaiata, uma nobreza tropical, ainda assim, há de se guardar o traço marcante, o traço quasi aristocrático que transforma o que alguns acreditam ser esporte na Paixão. O Flamengo não acreditava mais nisso, e mais uma vez, como sói acontecer em sua longa história, tratou de maltratar o Futebol. À torcida já não interessava mais adversários, não tinha mais graça provocá-los. Bastava o Flamengo no mundo.

Amigos, o erro é considerar que o Flamengo era maior que o Futebol e que prescindia dele. O Futebol não aceita este tipo de tratamento. E cobra sua fatura, aqui, no Rio ou em Joanesburgo.