Os anos correm, as derrotas se acumulam e não adianta: os brasileiros não aprendem a jogar no mítico estádio do Boca Juniors. Adilson Batista, com seu vistoso Cruzeiro, deu mais um exemplo de, não sei se diria covardia, mas excessiva cautela diante do rival argentino. Por mais que os analistas e os entendidos alertem, por mais que o Quem é a bola? avise, as esquadras brasileiras recuam, se apequenam e dão campo pro Boca tocar placidamente a bola até que um atacante atravesse a linha do gol sem que ninguém perceba. Afinal, é esse o estilo do novo rey de copas – não há um ímpeto furioso, correria ou bicas, só o toque mágico, a tranqüilidade, o gol e a taça.

O Cruzeiro mudou visivelmente o seu modo de jogar que, vejam bem, trataria de anular em parte o poder do Boca – é o óbvio ululante que a imprensa publicou diariamente na última semana: se recuar, o Boca vence. Para além disso, pode-se dizer que alguns jogadores afinaram grotescamente diante da imagem de Maradona prestes a despencar do seu camarote. Há quem diga que foi um tento valioso, esse marcado fora de casa. Não neguemos, mas é bom lembrar que o Boca não se sente particularmente incomodado em jogar em campo inimigo. O fato que me faz crer como insípido esse gol de visitante é o do Boca, hoje, ter atuado quase sempre mal – desleixado, errando passes e com uma defesa insegura até mesmo diante do vazio que era o ataque do Cruzeiro a certa altura do jogo.

Com a sorte que historicamente abençoa o Cruzeiro, não seria nada de mais sair com um empate. A garantia de, em BH, forçar o Boca a atacar e, mineiramente, matá-lo com três contra-ataques e dois gols de Moreno e um de Ramires. A corrida pro abraço já estaria garantida. Agora, ainda que possível, corre diversos perigos.

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América e Flamengo fizeram o jogo mais insólito da quarta-feira continental. Ora, é insólito poupar titulares na Libertadores por conta do estadual – por mais que, analisando-se friamente, faça certo sentido; é insólito o Flamengo fazer quatro gols; é insólita a imagem de Joel quase desfalecendo na confortável e ostensiva poltrona de reservas do Azteca. A bem dizer, é insólita também a presença do América nesta fase de oitavas.

O Quem é a bola? é conhecido por sua tendência compassiva, de compreensão para com os problemas que clubes e atletas enfrentam e, portanto, vou ser comedido, dizendo apenas que o time do América é medonho. Que a sua defesa é patética. Que o seu goleiro é mulher. Que a última posição no mexicanão está sendo desonrada com tão baixa qualidade. Que Cabañas é imenso. E, para falar das flores, que foram destacáveis os dois gols que conseguiram fazer no Flamengo.

Flamengo que desperdiçou mais chances do que deveria e que, nos dois referidos gols, falhou grotescamente. No primeiro, o rival conseguiu cabecear de costas, após a falha de marcação na cobrança curta de escanteio. No segundo, um pé torto apareceu sozinho para carimbar a palavra “PENEIRA” na testa de Fábio Luciano, zagueiro que anda estranhamente inseguro e continua a pensar que impor respeito significa chutar cabeças adversárias e derramar perdigotos na testa do juiz.

Mas e Joel? O homem anda aborrecido, ressentido com a mídia golpista que lhe critica por não saber inglês e não usar computador – procedimento com o qual o Quem é a bola? não compactua: criticamos Joel pelo fato do seu time não possuir armador e por ele insistir num Kleberson que, de passes errados, só vive na casa dos três dígitos. O Papai, dessa vez, acertou em quase tudo. Quase, explico: não se pode creditar a vitória expressiva só aos seus acertos; há que se dar o devido descrédito aos erros do América – nunca foi tão fácil estancar o passo para evitar o impedimento e depois caminhar livre até o gol de Ochoa. Só uma hecatombe no Rio de Janeiro tira a vaga do Flamengo – e, por mais que a cidade esteja entregue aos mosquitos, os insetos ainda não possuem tanto poder.