Nosso personagem da semana não entrou em campo. Está num ostracismo digno de um traidor romano. É motivo de chacota e, para selar sua indigência futebolística, só precisaria se envolver numa querela com uma gangue de travestis e arranjar um delegado que, na realidade, mais parece seu assessor de imprensa. Mas Ronaldinho, ainda assim, é personagem: após a eliminação do Barcelona, todos, lorpas ou não, fizeram a pergunta elementar – com Ronaldinho em campo o Barcelona se classificaria?

Óbvio que não. Considerando as últimas atuações que protagonizou no time catalão, Ronaldinho nada faria – entregue à marcação, seria facilmente anulado e, em produtividade, perderia para Deco e Messi, igualado apenas por um Eto’o desfibrado, lento e irreconhecível. Ronaldinho, cada vez mais, parece se tornar o jogador do “se”. Por exemplo, é moeda corrente a idéia de que, em jogos decisivos, ele entra na sua própria cartola, da qual, em jogos amistosos, costuma retirar piruetas, malabarismos e genialidades incontáveis, transformando-se num meia apático e num atacante pouco prático. Tipo Cristiano Ronaldo. E se Ronaldinho fosse um jogador também de decisões? Quem poderia fazer frente ao Barça?

Agora questionamos, todos, o que aconteceria se ele jogasse no futebol italiano. Se conseguiria adaptar-se ao futebol inglês. Se deveria persistir no clube catalão. Se não estaria na hora de ir jogar nas Arábias. Se, a exemplo de Riquelme, não deveria vir ajudar o Grêmio ou se, tal qual Adriano, não poderia pensar numa recuperação em terras morumbísticas. É claro que a sua permanência na Europa deve ser o caminho, mas o Barcelona, ao que parece, já é passado.

A verdade é que a queda de Ronaldinho confunde-se com o esfacelamento do que, há dois anos, era o melhor esquadrão do universo. Messi, perigando tornar-se uma eterna promessa, não consegue regularidade – é verdade que, nesta temporada, foi atrapalhado por lesões, mas está na hora de, ao menos, levar seu time a uma conquista nacional. Eto’o dá sinais claros de que deseja partir para as regiões do Norte. Henry não se firma. Bojan e dos Santos entram esporadicamente, fazem seus gols mas ainda não inspiram a confiança necessária para comandar um time do calibre do Barcelona.

Contudo, o que mais me intriga nesse recente desaparecimento do Gaúcho é a atitude do Barcelona – aqui, incluo time, diretoria e torcida. O maior clube da Catalunha possui simpatizantes no Brasil e, entre eles, eu me incluía até bem pouco tempo atrás. A rigor, isso pouco ou nada tinha a ver com o futebol – era uma simpatia que transcendia o esporte bretão e se alimentava de outros clichês: existe uma áurea de rebeldia no Barcelona e de reacionarismo no Real que traz, em sua origem, questões político-partidárias, religiosas, míticas, cosmogônicas, cosmológicas e charlatânicas. Sim, torcemos para o Barça porque não toleramos a superioridade, a ostentação e a majestade do Real Madrid, clube insípido.

Mas isso, pelo menos em mim, se partiu: analisando (com pouco rigor, é verdade) a história recente do clube, conclui que são uns verdadeiros traidores. Que desprezam seus futebolistas e que, na primeira oportunidade, achincalham o craque que, meses antes, era ídolo, santo. Não espero que tolerem um moleirão, um bovino em campo – mas há que se dizer: Schuster, Rivaldo, Romário, Gaúcho, Ronaldo, Figo – todos eles, ainda que alguns não tenham sido apedrejados publicamente como é o caso de Ronaldinho, foram parcialmente esquecidos. Mas não se esquece o gol de bicicleta, o hat trick de Rivaldo que os enviou a uma Liga dos Campeões. Não se esquece os massacres que Romário e Gaúcho impuseram ao seu maior rival espanhol – e as boas atuações desse último na recente conquista continental que culminou naquele jogo estranho na França em que o inesquecível Belletti brilhou solitário. Cruel Barcelona, um clube sem memórias.

Mas não o condeno de todo. Sei as circunstâncias do caso Ronaldinho e sei que, numa recente e furada enquete, escolheram Romário o melhor atacante que já passou pelo Nou. Ninguém é inocente: Ronaldinho caiu grosseiramente, tornou-se improdutivo e transformou-se numa irritante celebridade, perdendo, pouco a pouco, a condição de jogador de futebol fenomenal. Todos fazem suas apostas para a próxima temporada – qual seria a melhor forma de recuperação? O Quem é a bola?  sente-se incapaz ou constrangido em opinar, mas não resiste a uma elocubração inocente: Ronaldinho vai pra Inglaterra e é campeão. O que, a bem dizer, não significa nada em análise esportiva.