
Salvaram o mundo nas guerras. Deram-nos Shakespeare, Byron, Shelley, Keats. Ensinaram-nos o Liberalismo. Redigiram a Magna Carta. A lista de feitos notáveis do povo inglês é longa, talvez a maior deste lado de cá do mundo. Nada disso, naturalmente, compara-se à invenção do futebol. Na guerra, não estavam sós. Shakespeare e demais poetas sempre serão restritos. O Liberalismo não foi devidamente aprendido ou fracassou por completo, a depender do ponto de vista. A Magna Carta sequer sabemos o que vem a ser. O inglês nunca foi tão universal quando no momento em que inventou o futebol – num jogo grotesco em que corre-se atrás duma bola uma nação atingiu o seu ápice, teve a certeza de que o seu legado jamais seria superado.
Mas não nos enganemos: o futebol inglês sempre foi sinônimo de ruindade. Peladas tenebrosas, violentíssimas, quase um rúgbi quando visto por nós – nós, explico: os líricos da bola, gente criada na base de Garrinchas, Romários, Zicos e da Guias. Tempo corrido e agora, ao fim da década 00, a Inglaterra tem o melhor futebol do planeta. Naturalmente o número de ingleses diminuiu dentro de campo, mas pouco importa: ninguém resiste imune às tradições locais – o futebol de Cristiano Ronaldo ou de Fabregas é extremamente inglês.
Explico-me: o futebol inglês, atualmente, é veloz e contundente. Há algum tempo eu lia as crônicas futebolísticas de Nelson Rodrigues e, toda vez em que ele exaltava o poder de “penetração” de certas figuras, perguntava-me o que isso viria a ser. O futebol brasileiro atual, sabemos, é fraco (sim, sei que é o único que temos e ainda me divirto horrores com ele, mas não vamos nos iludir): não há um ímpeto que possamos classificar como poder de penetração – com toda a conotação homoerótica que o termo vem a ganhar dentro de um campo de futebol.
Manchester United e Arsenal enfrentaram-se hoje num jogo franco, veloz, rasgante. As defesas eram perfuradas pelos passes de Fabegras e as corridas de Adebayor, pelas arrancadas de Cristiano Ronaldo – que dispara com a sutileza e a força típica dos búfalos da Ilha de Marajó – e pelos chutes secos de Rooney ou Tevez. Com a vitória, os Red Devils praticamente asseguram mais um título nacional – coisa pequena quando comparada à maior possibilidade da temporada, que é o título continental. O Arsenal, que ganhou a simpatia de todo o staff do Quem é a Bola? demonstrou imaturidade, falta de elenco e tropeçou de vez, terminando mais uma temporada sem título algum.
A revolução ocorrida no futebol inglês também tem um lado obscuro. Os investidores, a “privatização” questionável de certos times e o excesso de grana geram desconfianças naturais – sobretudo se considerarmos a paixão dos ingleses pela aposta esportiva. Mas, enquanto nenhum escândalo é comprovado, não há pecado em deliciar-se com as partidas semanais na terra de Mr. Bean. Todo o espetáculo é cercado de uma plasticidade inegável: o campo de dimensões reduzidas, a falta de separação entre palco e público, os gramados verdes, os estádios quase sempre abarrotados e, sobretudo, a velocidade e a habilidade de quem corre em campo, sempre em direção ao gol.