“O Arsenal é o campeão da Liga dos Campeões de 2007/2008. Quem dissesse isso no começo da temporada, seria taxado de louco ou imbecil, quando não de animal. E, no entanto, isso ocorreu.”

Como eu gostaria que essa frase acima fosse verdadeira. Mais uma vez, o futebol prega de suas peças, mas agora não é tão dramático quanto possa parecer. Os 21 primeiros minutos da partida entre Liverpool e Arsenal em Anfield Road jamais podem ser descritos em palavras e, creio, que será difícil mesmo fazê-lo com as imagens da partida. Sufoco, asfixia, ofensividade excepcional, marcação perfeita, ataque incessante, passes de primeira, um-dois. Não se pode dizer que era um treino, porque o outro time se esforçava. Era sim um espetáculo, sem dúvida. E o gol logo surgiu, ao contrário dos pretéritos embates em que o Arsenal jamais conseguia abrir logo o marcador, apesar de sua superioridade. Desta feita, Diaby alimentava os sonhos de futebol.
Mas houve um equilíbrio. Mais tarde, Paulo Vinicíus Coelho chamaria aquilo de “espetáculo” (e no segundo seguinte, corrigiria “não é um espetáculo com a bola no pé, mas…). Espetáculo grotesco, certamente. O Liverpool é um time que quando joga de forma perfeita impede que exista um jogo de futebol. É como se o “You´ll Never Walk Alone” dos portões de Anfield fossem transmutados em “You´ll Never Play Soccer Here”. No caso, isso vale não só para os visitantes, mas para o próprio clube. Pois se fez o domínio dos Vermelhos desse modo. Não havia mais jogo de futebol, apenas restava o tédio. Pronto, este era o espetáculo que me levava ao sono ou a vontade de estar acompanhando o jogo do Fenerbahçe com o Chelsea- e era o que chamam de domínio num jogo de futebol.
Ora, pode-se dizer que isso é o que o Boca Juniors costuma fazer e que é foi a estratégia do São Paulo do ano que passou. Certamente, respondo, mas se você não nutre torcida pelo time ou se acredita que é possível uma equipe que gasta milhões e milhões e bilhões de euros jogar de forma mais agradável, não é possível encarar um jogo desse de forma não aborrecida.
Foi quando o jogo definitivamente ganhou um novo título: o Eslovaco e o Suíço. Philip Senderos, que já tinha incorrido em falha clamorosa no gol de Hyppia, deixando-o solto para fazer o gol enquanto ajeitava seu penteado, permitiu que Fernando Torres recebesse a bola, dominasse, girasse, fizesse um telefonema para seus pais em Madri, para seu fã em Amsterdã e para seu agente, estufando as redes londrinas.
Talvez eu esteja sendo um pouco injusto com o Suíço (como estou sendo com o Liverpool ao longo do texto), afinal, eram mais 2 jogadores do Arsenal nas proximidades. É impossível que um time jogue com uma zaga tão descoberta, penso. Contudo, reflito, aparece o Botafogo na minha mente e vejo que é possível sim- é até provável.
O eslovaco, Skrtel, razoável e jovem beque do Liverpool, a uma altura do jogo espana a bola de uma forma tão formidável quanto um zagueiro deve fazer. Senderos deve ter ficado amuado com seu oposto no outro time.
Mas nenhum zagueiro do leste Europeu é capaz de combater o Brilho. Wallcot arrancou de sua área, dribla até as almas de Lennon e Harrison que acompanhavam o clássico, passando a bola para Adebayor, que minutos antes havia perdido um quase-gol. 2 a 2.
Eu vibrava com meus botões, quando um pênalti atabalhoado destruia os sonhos. Eram 39 minutos da segunda etapa e Gerrard já comemorava sua bela cobrança, ao passo que eu não acreditava que tudo estava acabado. Após a belíssima jogada de Wallcot, não era possível que o Arsenal estivesse fora. Não, era mais do que o campo da possibilidade, era o campo da tragédia. Era trágico que o Arsenal estivesse fora. Era mais do que trágico, era propriamente uma hecatombe.
Os rapazes de Wenger sentiram o choque. Sentiram a torcida, a excelente, fiel e cantante torcida do Liverpool. E já não era mais possível. Tanto não era que Fábregas sozinho não deu conta de evitar o quarto gol. A essa altura, o Arsenal era só destroços.
Eu não prestava mais atenção ao resultado, no entanto. Eu lembrava dos 20 primeiros minutos da partida e do gol de Wallcot, digo, Adebayor. Eu pensava em Bendtner tirando a bola certa e do pênalti cometido por Kuyt e não marcado em Londres. Eu sonhava com o massacre de San Siro. Qual é a relevância do resto da Liga dos Campeões diante de tudo isso? A derrota do Arsenal era honrada. O jogo tinha acabado aos 38 da segunda etapa.
O Arsenal é o campeão da Liga dos Campeões de 07/08.