Existe algo superior no mundo. Ninguém pode saber o que é, e malucos travestidos de céticos podem achar que não somos nada mais que um amontoado de células, ácaros e bactérias, evoluídos de um sopão de elementos químicos. É tentador acreditar nisso, passa uma idéia de ilusão, de conhecimento pleno, de domínio sobre o mundo. É algo que se espalha no mundo feito ferimentos em pernas nas guerras de espada do São João.

A perda da noção de que existe algo superior no mundo é uma violação à própria humanidade. Não é outro o motivo do cansaço que abate a todos- Eu posso ver o rapaz na rua, fingindo aquela felicidade, mas por dentro ele é só destroços- isto é a vida de hoje.

Mas há algo superior. Ou talvez sejam algos. Uma dessas coisas inexplicáveis que possivelmente existam é a sina. Mais do que o destino, que é para o futuro, a sina é o desde o princípio o acompanhante-mor, o feroz escudeiro da vida de alguém, que pode ser uma pessoa ou mesmo um animal, uma instituição ou, sei lá, um ser inanimado mesmo. A sina é a sina.

O Botafogo tem uma sina inegável. É a sina da derrota. Ainda que vença, o aspecto é da pura derrota. O Botafogo enfiou 7 tentos no Milan? O aspecto que teremos é de um time abatido, que lamenta o erro do juiz num pênalti aos 50 do segundo tempo. Essa é a sina do Botafogo.

A sina do Arsenal, ao menos o desses tempos cachorros, é outra: É desafiar a minha paciência. Ou, sendo mais universal, é massacrar um adversário, mas não de uma forma sufocante, em forma de blitzkrieg . É uma espécie de Invencível Armada do Lugar Nenhum. E mesmo quando se chega a algum lugar, o que resta é um Bendtner de zagueiro, em posição irregular, atrapalhando tudo.

A sina do Liverpool é vencer. Ainda que jogue feito um Fluminense de Feira, o meu Fluminense de Feira, eternamente pequeno, eternamente vilipendiado, o Liverpool vence. Hoje mesmo em Londres, a maestria dos Vermelhos era marcar de uma forma irritante, com seus jogadores atrás do meio de campo, esperando o apito do juiz (nem que fosse um apito assaltante, que não marcou o pênalti escandaloso em Hleb)..

E é incrível como o Arsenal- e como boa parte dos times, conforme observa de forma genial meu genitor- não pensa em jogar pelas pontas do campo. O Arsenal queria ir pelo meio, achando que seu nome justificaria qualquer tentativa radioterapêutica. Em alguns momentos, alguns Atiradores sentiam-se mesmo parte da RAF, prestes a escalpelar Dresden. Quando, na verdade, não conseguiam nem acionar um teco-teco para voar do Cemitério de Highgate até Westminster (seja lá qual distância isso tenha na Londres real).

É evidente que as sinas podem ser quebradas, e isto é parte da espoleta do mundo- uma das razões, aliás, para crer com devota fidelidade no imponderável. O Arsenal pode levar tudo- e talvez eu não caminhe mais sozinho nos meus sonhos de time ofensivo, que se preocupe mais em ganhar do que em qualquer outro resultado- o que os últimos 5 empates e 1 derrota em 7 jogos não mostram ser muito crível.

No entanto, houve o 3 a 2 estabanado do fim de semana. E há sempre o imponderável. O inexplicável. A sina. O futebol.

Anfield que espere.