Lembro de um rapaz imaginário, que após perder uma causa na Justiça, uma indenização ou algo sobre propriedade, saiu aos prantos, berrando: “Isso tudo aí não existe! Justiça não existe! O que existe é o dinheiro, o que existe é a miséria!”. E saiu desesperado. É bem possível que o rapaz tivesse razão- e não é pequena a parcela das pessoas com mais de 11 anos de idade que acreditam que tudo mais é estrume.

Assim que cheguei em casa hoje, aos 18 minutos do segundo tempo, um comentarista afirmava a supremacia do Arsenal. A câmera filmava Pato. Belo cabelo, o rosto com ar de maquiado- chamam isso de pancake?- parece que o rapaz se ambientou bem à Europa.

Kaká, o gigante de outrora, encontrou a contenção devida. O time mais bonito do mundo não poderia perder esse jogo. Senti isso aos 18 minutos do segundo tempo de hoje. O massacre da outra partida se repetia- desta vez na Itália e, espero, sem que a imprensa esportiva engula a mosca, proferindo insanidades a respeito da qualidade (Jesus, houve quem afirmou isso) do sistema defensivo milanês. Sim, porque a imprensa teve medo de afirmar o óbvio (a superioridade do Arsenal), possivelmente com receio de ser surpreendida pelo Milan- quando a afirmação do óbvio jamais poderia negar a verdade fundamental do futebol, que é a chance do pequeno contra o gigante, do medíocre contra o esplendoroso, do retranqueiro contra o brilhantemente ofensivo.

Eu tinha certeza da vitória do Arsenal, mas temia a verdade fundamental do futebol. Uma análise racional diria, porém, que não havia motivos para o medo, porque Kaká não conseguia nada e Gillardino estava em campo.

Mas eu pensava no mundo. A injustiça é dado fundamental de tudo em que se envolve o homem. Não seria a primeira vez que isso poderia acontecer. Mesmo com a certeza da vitória, eu já me resignava em caso da derrota dos ingleses ( digo, não-ingleses) de Wenger.

E eis que exsurgiu Cesc Fábregas. Quando tocou na bola no meio-campo, antevi o gol. Eu já comemorava quando o tiro certeiro fuzilou Kalac. E então eu lembrei de toda a temporada do Milan- das atuações medonhas e patéticas do Italiano, da derrota para o Celtic com a encenação genial de Dida e do excesso de confiança que as pessoas depositavam neste time. E pensei em Têmis.

Paro e penso naqueles que desejariam um recuo- e se há neste mundo quem desejasse um recuo do Arsenal quando estava 0 a 0 para garantir uma prorrogação, certamente o mundo é um hospício pela mera existência deste alguém. O Arsenal não recuou- e a Avenida Paolo Maldini deu frutos.

Pronto, a Justiça havia sido feita no mundo. O time que joga o futebol mais bonito do planeta (Manchester United? Vamos rir todos dessa piada!) mostrava que maior do que o peso da camisa era o peso da idade e da auto-confiança exagerada.

Os romanos diziam que um dos princípios elementares da Justiça era “dar a cada um o que é seu”. Hoje, os rapazes de Wenger seguiram tal lição à risca.