Outro dia, um rapaz saiu correndo apressado pelo meio da cidade. Em seu frenesi, perdeu as chaves de sua casa, pisou nos pés de algumas senhoras -e reparem no peso que essa palavra ganha hoje- as senhoras têm 60, 70 anos e as menores de 89 parecem rejeitar definitivamente tal alcunha. Ser uma Senhora é quase ofensivo- tudo porque pensava que sua mulher, grávida, estava em vias de ter o rebento. Sim, em vias de dar à luz, o momento mais sagrado da humanidade.
No entanto, já chegando em casa, quando buzinava insistentemente a campainha, o rapaz se deu conta de que sua pequena não estava grávida. Pior, lembrou-se de que não tinha uma esposa. Mais trágico, teve a terrível visão de que não possuía sequer uma namorada. E, então, sentiu que quase havia causado o apocalipse por nada. E chorou.
Do jogo de domingo entre Flamengo e Botafogo, o jogo é o que importa menos a essa altura. Este é o dado trágico da semana, e ainda assim, ninguém fica muito preocupado, ninguém parece se importar. Incrível, teatral, espetacularmente estrondosa é esta situação. O jogo não importa.
A dramática mis-en-scene armada pela diretoria, comissão técnica e pelos próprios jogadores do Botafogo foi digna de um time que treme, que chacoalha suas pernas diante de qualquer jogo considerado decisivo. A visão do jogo é nada menos do que esta simples análise: o Botafogo não pode ganhar, porque simplesmente está além de suas capacidades. E estas capacidades estão além de minha compreensão- ou mesmo da de Freud.
Cuca monta times extremamente agradáveis, principalmente porque tratam o futebol não como uma mera busca pela não-derrota, e sim porque buscam o encanto da vitória. É claro que no futebol, como na vida, a busca do encanto constante não passa de uma falha e os transtornos que causam são dramáticos feito o diabo.
Cuca é mesmo trágico feito o diabo. O rosto de Cuca, após a derrota para o Once Caldas (nas semifinais da Libertadores) ou para o Figueirense e agora após o jogo contra o Flamengo é a perfeita expressão de um homem que não monta equipes para vencer campeonatos- ou pior, não consegue fazê-lo.
Alguém argumenta, de forma canibal, em meu juízo, que Cuca erra ao pôr o time para vencer quando, com 1 jogador a menos, deveria buscar os pênaltis. Ora, esta é a maior qualidade do time dele, é o destemor. Ainda não acredito que a derrota do Botafogo tenha sido causada pelo ataque, mas sim pelo desespero- o puro e simples e vital desespero. A jogada do gol assassino, na qual Tardelli sobra sozinho, após uma saída desastrada de seu marcador é a prova de que o que faltava ali não era marcação- e sim, calma, sangue-frio- e um pouco de psicopatia, essencial para viver.
A mis-en-scene é a concretização do desespero- não me venham falar da arbitragem, porque pretendo retirar o pentacampeonato da Canarinho, bastando lembrar do jogo contra a Bélgica,certo? A própria versão dos botafoguenses não se sustenta. Túlio diz que não tem nada a ver com o Flamengo, Montenegro diz que trabalha no Ibope e sabe da quantidade de flamenguista que existe no mundo e a torcida diz que os rubro-negros são sempre beneficiados (uma meia-verdade, mas que não é relevante para explicar a derrota).
Não foi o juiz que perdeu os gols nos últimos minutos, não foi o juiz que deixou o flamenguista Tardelli desmarcado, não foi o juiz que puxou a camisa de Fábio Luciano de forma acintosa e pueril. Foram botafoguenses, assim como foram alvinegros o rapaz que acertou a canela de Reasco e o que chutou a bola em Leandro ou o que tomou o gol do Figueirense ou ainda o que fez pênalti no jogador do Atlético Mineiro (ah, esse o juiz não marcou).
Acusar a conspiração é a forma evidente de desespero, e eu não conheço um homem que não esteja destemperado a cuspir tragédias arquitetadas às suas costas. Não que a malandragem e a safadeza não existam- são intrínsecas ao ser humano- mas daí a dizer que os próprios erros são malandragem e safadeza, bem…
Mas por que escrevo tanto? O que é a Taça Guanabara? Qual o real sentido de se discutir a Taça Guanabara? Quem via os comentários de José Trajano a respeito dos clubes paulistas (medonhos, inclusive- falo dos times), e não assistiu aos jogos dos escretes cariocas, imaginaria que o Duque de Caxias, o Macaé, o Mesquita e mesmo o Vasco da Gama ou o Flamengo jogavam um futebol digno do nome. Pelas minhas contas, o Campeonato do Estado do Rio de Janeiro teve 2 ou 3 jogos. É verdade que o Paulista não teve nenhum ainda.
Mas é tudo água. Por que falar tanto sobre a gravidez que não existe?