A Copa do Mundo de 2006 não me irritou por causa do Brasil. O time era tão descomprometido, tão absurdo, que não havia como maldizer aquilo tudo- bastava torcer inconscientemente para o time adversário, pois uma hora o desmoronamento haveria de chegar. O Mundial de 2006 foi desgastante mesmo para quem assistiu aos jogos da Costa do Marfim. Domínio absoluto de boa parte dos jogos, pressão total, e uma incapacidade assombrosa de converter a substância em gols. O resultado todos conhecemos- aliás, os Elefantes mais uma vez decepcionaram na CAN- só que desta feita, não me irritei- não assisti aos jogos.

Devo falar, porém, do chamado grande jogo das oitavas de final da Liga dos Campeões. Arsenal e Milan confrontaram-se no Emirates. Mas um desinformado poderia achar que o jogo era entre o Leônico e a Hungria de Puskas. Em alguns momentos, a disparidade de forças era tamanha que fazia corar o mais rubro-negro dos italianos. E, no entanto, a partida seguia sem gols. Em Glasgow, um time com o qual simpatizo efetivamente, talvez pela ruindade intrínseca do seu futebol (muito embora a paixão da torcida compense de quando em quando), parecia querer surpreender. Em Londres, porém, os gols não surgiam. Mas o massacre era evidente.

Certamente o prefeito de Londres teve inveja da atuação milanesa. A inauguração da Avenida Paolo Maldini e sua ligação com a Avenida Andrea Pirlo foi tão imediata que as empreiteiras de todo o mundo tremeram ante a tão competente concorrência. Seedorf estava tão pálido que tive vontade de pegar um avião para lhe dar algum remédio. Kaká sofria, ou pela marcação ou pela indisposição (são coisas da vida e acontecem).

Ah, sim, e o garoto Pato. Por um momento, pensei que o rapaz era refugiado da Somália ou da Etiópia, tamanha era sua fome e ojeriza a compartilhar a bola com outros companheiros. No instante seguinte, já imaginava que ele tinha 13 ou 14 anos para cometer uma falta tão desnecessária, ganhando de brinde um McLanche cartão amarelo.

E o Arsenal corria. E Adebayor, o togolês, não conseguia acertar. O desespero do Arsenal era quase silencioso. Era o nervosismo do medo ou da vontade excessiva. O time corria, corria, corria e corria. Mas o passe final, o chute ao gol, nada disso parecia palpável. Sorte do Kalac ( e quando eu falo em Kalac, só consigo pensar no Dida, contudido sem nem sequer jogar).

O nervosismo dos ingleses (ou melhor, dos não ingleses) era tanto, que o Milan chegou a ter alguma oportunidade- sim, mesmo o Leônico pode ter oportunidades, e isso é o futebol. O futebol é tão magnífico que mesmo um massacre pode resultar em nenhuma baixa de guerra.

Desde o sorteio, se alguém me dissesse que o favorito era o Arsenal, eu trataria de arrumar-lhe uma vaga no Juliano Moreira, o manicômico soteropolitano. Jamais duvidei da capacidade de times “copeiros” – conceito que merece ser destrinchado. Jamais duvidei da capacidade do meio de campo do Milan. Mas os últimos eventos, com Ronaldo e Dida, até pareciam querer demonstrar que os italianos (ou nem tanto) não venceriam. É verdade que a temporada toda do Milan soava como presságio do caos- mas até aí, as finais da LC e do Mundial de 2007 comprovavam justamente a capacidade de o time rubro-negro surpreender. O jogo de hoje é enigmático justamente no sentido de que mostra um Milan com meio de campo horrível e uma defesa não exatamente a melhor do mundo, mas deixa claro que o Arsenal precisa de um algo mais para a classificação.

Torço (pelo bem do futebol) que sejam os ares italianos- ou o nhoque e a lasanha.