
Precisei acompanhar a batalha entre Liverpool e Inter de Milão por dever profissional. Dependesse da minha escolha, assistiria, contente que só, o embate entre Roma e Real Madrid. Já comecei contrariado. O jogo na Inglaterra corria, corria – e, fora a expulsão do truculento Materazzi, antes dos trinta minutos de jogo, nada de interessante acontecia no gramado. A esférica sofria, sendo atirada para todos os lados.
Enquanto isso, Roma e Real Madrid faziam gols. E, vejam vocês, hoje, lá pelas seis e vinte da manhã, levantei da cama e falei, para mim mesmo: “Hoje eu quero ver gol!” Quando notei que o jogo sob minha responsabilidade seria o dito cujo, desanimei. É sabido que o Liverpool passa por uma fase negra, embora eu não tenha acompanhado o time nas últimas rodadas (justamente por isso). Quanto à esquadra italiana, nutro por ela uma mania quase quixotesca, lédio-carmonesca: é campeã, é líder, não perde pra ninguém mas, ainda assim, eu não a aceito. Posso ser desmentido pelos números e pelos fatos, mas a Inter só me parece um time envelhecido, previsível.
Hoje eu tinha razão. A Inter foi previsível – até bisonha, eu diria. Ao perder um zagueiro, armou uma retranca quase intransponível e desistiu de jogar. Lutou para segurar o empate e, como sempre acontece desde que Jesus apitou a primeira pelada em Nazaré, o time com mais ímpeto furou o bloqueio e venceu o jogo. O Liverpool não foi brilhante, mas a Inter foi medíocre – e uma liga de campeões não perdoa os medíocres. Enquanto Roma e Real Madrid faziam gols, eu bocejava ternamente, embalado pelo belo e melancólico canto da torcida inglesa.
Ao fim do jogo, fui recompensado com dois gols em seqüência. Gols merecidos, catárticos e decisivos. Talvez em casa a Inter recupere-se e livre-se da covardia que apresentou hoje. Ainda assim, terá um longo caminho a percorrer para roubar a vaga do Liverpool – que, por mais fraco e perdido que esteja, parece estar sempre pronto a conquistar títulos.