Caminho os olhos pelas notícias do futebol. Brigas, confusão, derrota dos pequenos no Carioca, vergonha dos grandes no Paulista, recuperação do Bravo Touro do Sertão, Egito goleando a Costa do Marfim. Sempre interessante.

Mas uma notícia corriqueira, quase banal – e um repórter morre ao saber que sua notícia é quase banal. O sonho de todo repórter é emplacar manchetes, notícias bombásticas, por mais que ele negue. A notícia é curiosa. Gilberto Silva.

Antes, relembro de um rapaz, um tanto quanto quixotesco- sei que isto não é necessariamente um elogio, muito menos um xingamento. O rapaz, após ter defendido o esquema tático de Dunga, afirmado que Júlio Baptista merecia ser titular em lugar de Kaká , sendo vítima de escárnio em decorrência de seus comentários, implorava por um reconhecimento público de que entedia de futebol. Enquanto implorava, quase gritava: – Eu assisto jogos, eu li jornais, eu entendo! Inócuo, porém.

Gilberto Silva é o assunto. O rapaz não é mau jogador. É verdade que participou da Canarinho de 2006, verdadeira vergonha nacional. Jogadores de futebol eram estrelas de reportagens pornográficas em que pernas depiladas e o feijão de Não sei onde pareciam mais relevantes que o adversário do próximo jogo. Todos sabem o resultado, mas Gilberto Silva até que não fez um mau papel. Estou sendo injusto, ele fez um bom papel na Copa, ao lado de Zé Roberto, Lúcio e Juan. De todo o elenco, apenas estes pareciam se salvar. E no Arsenal garantia a segurança de um time extremamente rápido, inclusive ajudando a distribuir a bola no meio de campo.

Contudo, a roda gira, e cá estamos em 2008. Gilberto Silva queixa-se da má sorte. Mais do que isso, queixa-se do treinador. Reclama reconhecimento. Berra ter feito uma boa temporada ano passado, afirma que o técnico o faz se sentir inútil e ameaça com uma futura saída.

Gilberto Silva joga no Arsenal, time que pratica um dos melhores futebóis do mundo, principalmente porque não é dependente de jogadores que falham em momentos cruciais. Não que não perca, perde e algumas vezes joga mal- mas não é um time que falha em momentos decisivos- sim, estou provocando quem prefere o Manchester United. Mas ele ameaça.

Do alto de seu bom futebol até 2006, Gilberto grita não ver motivos para estar alijado do time principal. Compreende-se. Gilberto não assiste seus próprios jogos. Quem viu o volante em campo, tanto no Arsenal quanto na seleção brasileira durante o ano de 2007 e já neste 2008, certamente sente-se envergonhado da afirmação do jogador. É um tipo de pleito naturalmente absurdo, tal qual soou a de nosso amigo de parágrafos acima. O futebol do jogador é apático, a marcação é deficiente, dando ensejo a falhas grotescas, e mesmo a qualidade do passe tem sido péssima.

É normal que um jogador queira participar efetivamente de seu time e, em tempos de justificada valorização daqueles que concretizam a arte, é bastante rotineiro que reclamem de seus respectivos técnicos. Como é mais do que normal e justo, que as pessoas peçam o impossível – não há nada mais saudável do que a liberdade. É, porém, constrangedor para os leitores, para o jornalista e até para o jogador que pretende participar do espetáculo, quando só contribui para prejudicá-lo.

São coisas da vida.

PS: A melhor afirmação é a complementar. “Um brasileiro triste não é algo bom”. Talvez um francês, um angolano ou cingalês tristes possa ser alguma coisa saudável. Certamente um inglês triste. Um brasileiro não. Não mesmo.