Sexta-Feira, Fevereiro 8th, 2008


Após o retorno à disputa, no ano passado – que teve direito a euforia da torcida, brigas contra altitude e vexame ainda nas oitavas de final -, o Flamengo está no caminho certo há muito tempo: pelo menos meio ano. Se é verdade que as contratações foram, em teoria, muito bem feitas, é curioso que elas têm sido pouco utilizadas por Joel Santana, que resolveu adotar a anciã política de não dar sopa pro azar e manter o time que, na temporada passada, obteve um sucesso tremendo. Uma zaga que pintava como uma das mais fortes do país, com Fábio Luciano e Rodrigo, já foi precocemente descartada pela lesão do segundo – o que não chega a ser um desastre, pois Ronaldo Angelim já deu provas de sua segurança e categoria para dar chutões pros lados e até apoiar o ataque pelas laterais.

Metido numa risível guerra contra os jogos realizados em altitudes elevadas, o Flamengo está num grupo de três times: afinal, quem é que vai perder pro Coronel Bolognesi? O Nacional é outro escrete que, a exemplo do Cerro Porteño, vive na base de tradição e jogo em casa – a diferença básica, no caso, é que o clube uruguaio já venceu o torneio por três vezes e costuma ter maior longevidade na competição (resumindo, é um adversário para empatar em Montevidéu e ganhar no Maracanã). O mais interessante dessa fase de grupos, contudo, será o embate contra o Cienciano, que joga na montanha – e só lá.

Considerando o nível patético da Taça Guanabara, é muito mais seguro analisar o Flamengo pelos jogos decisivos que fez na reta final do Brasileirão passado: entupido de volantes, vai ganhar um monte de gente no abafa, dentro do Maracanã. E é justamente esse o problema: quando foi a última vez em que o Flamengo ganhou fora de casa? Alguém disse América de Natal, em outubro, por 1 a 0? Será fundamental para o rubro-negro saber se portar longe do Rio de Janeiro, num joguinho meia-boca no interior peruano ou em plena Buenos Aires ou ali por La Plata. O torcedor, ao que parece, pelo menos já pode conviver com a certeza de que o atual time irá superar (sem dificuldades) aquilo que foi feito na última edição da Libertadores – na qual uma equipe que sonhava com o título foi responsável pelo pior jogo de futebol do ano contra o Defensor. Daí pra frente, é apelar pra São Judas Tadeu e treinar alguém pra segurar o Riquelme.

CRUZEIRO

Pois então, o Cerro Porteño, o clube proletário de Assunção, não ofereceu a menor resistência ao Cruzeiro. Comenta-se que em Minas o jogo poderia facilmente ter chegado à meia dezena, não fosse um homem de preto (ou de amarelo ou verde-cana) e um gol perdido cara a cara pelo Boliviano, Marcelo Moreno. O time do Cruzeiro certamente não é ruim. Todavia não me parece um time tão bom assim. PVC fala que um grande escrete está sendo montado, acompanhado por meu colega de redação. Peço calma a ambos. Lembremos de 2007. Lembremos do fatídico 4 a 0 sofrido na ida da final do Estadual. O time se recuperou? Não sei. O Brasileiro de 2007 foi decidido em 2 momentos: O primeiro, na verdade, um conjunto de momentos, foram as seguidas vitórias do São Paulo contra adversários diretos; O segundo foi também outro conjunto. Reformulo a frase, portanto. O Brasileiro foi decidido por 2 conjuntos de momentos. O outro conjunto de momentos foi o Cruzeiro. O Cruzeiro abusou da sorte, e quando o São Paulo parecia perder o fôlego, o Cruzeiro tropeçava de modo desesperado, semelhante a um cachorro com problemas nas patas. A dona pode ter todo o carinho do mundo, mas o pobre cão não será um caçador de gatos.

O ataque do time é bom, mas já era ano passado. As laterais estão bem ofensivas, com Marquinhos Paraná (ou seu bancário, Apodi) e Jadilson, mas estes dois cidadãos não sabem o que é marcação. O time padece de um defeito, flagrante nos dois gols sofridos em terras paraguais: é a defesa. O Cruzeiro tomou gols como só ocorre a um time muito desguarnecido – e o time possuia a vantagem, além de estar fora de casa. Mesmo contra um time mais fraco, é deveras temerário fazer isso em uma Libertadores, que está repleta de exemplos de Davis e Golias.

Como se não fosse o bastante, há o grupo. Potosí é um grande risco de se perder pontos (sobre altitude, cabe falarmos mais em outra hora). Não faço idéia de como anda o Caracas, mas se estiver tal qual o time do ano passado, serão partidas complicadíssimas. Há ainda o San Lorenzo, com D´Alessandro e no ano do centenário. Sim, o clichê dos argentinos vale muito. Se passar do grupo, o Cruzeiro chega, no máximo, às quartas. Será uma excelente campanha para essa defesa.

SÃO PAULO

No limite da irresponsabilidade. Não, não estou a falar deste centroavante acima fotografado. A atitude irresponsável é da diretoria do São Paulo, atual bicampeão brasileiro, que ao invés de seguir a política de reposicionamento dos últimos anos (desde quando o técnico era Cuca e o clube retornou ao torneio americano), repetiu o erro do ano passado, algo agravado pelas perdas de dois coringas, Souza e Leandro.

A respeito dos dois jogadores, o maior erro não foi nem a saída de ambos. No caso principalmente de Souza, foi um movimento necessário, uma vez que ele sempre se imaginou maior do que realmente é, o que, conforme já vimos no “Fluminense affair”, é inútil e problemático. Um medíocre pode ser genial se desde o começo se reconhecer medíocre. E um acima da média pode ser patético caso se imagine divino.

Souza e Leandro saíram, mas não chegou ninguém para o lugar deles. Pior, desde a saída de Danilo, o time não possui um armador , origem de boa parte das dificuldades do clube na Libertadores passada e mesmo no Brasileiro. A vinda de três “europeus” não é ruim, até pelas naturezas da negociações. Falo de custos e possíveis benefícios, naturalmente. O caso de Carlos Alberto é emblemático, até porque algum caboclo convenceu os alemães a torrarem numerário com o jogador, que não faz grande temporada há um tempo, e a solução encontrada parece ter sido a oração- o envio do rapaz ao Brasil é só o acessório.

Mesmo contando com um bom time titular, resta ainda dificuldades na montagem da defesa, esteio ano passado e que agora parece mais lenta. E o elenco é muito reduzido. São 22, 23 jogadores. Com as lesões, o time tem que contar com juniores. Só uma imaginação muito fértil conceberia outro Breno tão rápido e em outra posição. A diretoria aposta nisso e tem grandes chances de brincar com fogo.

O grupo não é complicado. O paraguaio Luqueño, o Atlético Nacional da Colômbia e o vencedor da partida entre Audax e Chicó não devem oferecer grandes dificuldades se o São Paulo render metade do que se espera (é bem verdade que o Audax deu uma canícula ano passado em pleno Cícero Pompeu). Falta, contudo, um homem de ligação, alguém que municie o ataque. O time hoje é inane. É quase impossível não dormir vendo o São Paulo jogar no Campeonato Paulista- mesmo o Muricy Ramalho pode ser pego no contrapé, tirando seus cochilos, ao mesmo tempo em que berra insistentemente.

Ah, eu tenho que arriscar um prognóstico. Consultando os caboclos de Bremen, vejo que o São Paulo pode chegar nas oitavas ou ser campeão. Isto é, não faço a mínima idéia de onde este time pode chegar.