Encerrado o recesso de Carnaval – durante o qual os integrantes do Quem é a bola? permaneceram em conserva nos seus devidos barris de álcool – este digníssimo blog retorna à luta diária frente aos parvos da bola. Há quem diga que, durante o fim de semana, a esférica correu pela grama tanto no Brasil quanto nesta outra parte da orbe que chamamos Mundo – mas, francamente, não temos notícia a esse respeito. Como imaginamos que a massa boleira está cansada das metáforas carnavalescas nas matérias sobre a nobre arte (”O bloco do Náutico está pronto”, “No quesito harmonia, o Botafogo é nota… dez (com a devida e clássica voz da apuração carioca)”, “Mano Menezes, como um verdadeiro mestre de bateria, comanda o Coringão”, “Renato Gaúcho pede que a comissão de frente tricolor ensaie pra valer” etc.), trataremos de analisar a ala lusófona da Libertadores 2008, sem prelúdios ou eufemismos, apontando quem vai pra final, quem cai nas oitavas, quem será atropelado pela zebra da temporada e quem, além de ser rebaixado no Paulistão, vai sair na primeira fase da competição.

SANTOS

Ocupando uma honrosa zona de rebaixamento estadual, o Santos tem tudo para dar vexame em 2008 e ser eliminado precocemente. A rigor, nenhum grupo da Libertadores é difícil, mas o assombroso Cúcuta pode estar preparando mais surpresas continentais e o Chivas mora longe – todo cuidado praiano será tão escasso quanto o oxigênio em Oruro, cidade do San Jose, esquadra que completa o grupo santista. Ainda com dor de cotovelo pela saída de Luxa, o clube não se acerta e, conseqüentemente, o time é um despropósito absoluto: nenhum futebolista joga bem, Fábio Costa quer surrar alguém, todo mundo pede vergonha na cara, Leão continua ostentando orgulhosamente sua falta de sutileza, as jovens revelações flutuam entre o time profissional e o bolso dos empresários e, veja você, a maior contratação, até aqui, foi a de Betão – que até parece um bom rapaz, mas que nasceu para administrar empresas ou para fazer carreira na obstetrícia. Pelo que li desde que retornei do recesso, o Santos agora aposta em jogadores hispano-americanos que certamente conheceu via DVDs grosseiramente editados – nova mania brasileira considerada deveras saudável pela crítica especializada (chegaram Molina, Michael Quiñonez e Sebastián Pinto – que, além de enfrentarem o problema de adaptação, provavelmente jogam pedrinhas). É necessário lembrar, contudo, que um time recheado de falantes de castelhano não é certeza de boa campanha na Libertadores – se falar espanhol fosse sinal de sucesso na América Rebelde e Profunda, o Flu seria eliminado por um time colombiano de segundo escalão.

FLUMINENSE

Será eliminado por um time colombiano de segundo escalão. As Laranjeiras, desde a conquista da Copa do Brasil, só comentam, só sonham, só praticam, só desejam a Libertadores. Tudo foi planejado, traçado, calculado. É necessário falar espanhol? Contrata-se o Conca. É necessário fazer gol? Joga-se com três atacantes. É necessário raça? Renato Gaúcho se empenha num patético discurso sobre ser impiedoso (como se empatar com Macaé não fosse questão de incompetência, mas de dó). Não se pode negar ao Flu, porém, o reconhecimento de todo o seu potencial e talento: Thiago Silva, Neves, Dodô, Conca, Washington, Arouca, Cícero, Leandro Amaral – só estes já formam uma esquadra respeitável, temível (listando assim, lentamente, dá até vontade de dizer que compõem o melhor elenco do país). Mas o tricolor sente a falta de um bom goleiro e da rescisão de contrato com Gustavo Nery. Além disso, a campanha do pó-de-arroz neste seu tão esperado retorno à Libertadores pode ser atrapalhada justamente pela longa ausência do clube na competição. Faltam experiência, uns calos e umas manhas. Como esquecer que Dodô, na histórica derrota do Botafogo para o River Plate, ano passado, avisava ao banco de reservas que sentia-se incomodado por uma forte dor de barriga? Caso a nossa previsão de pouca longevidade do Flu na competição se concretize, diretoria e torcida precisam compreender que, trabalhando mediocremente como se deve, podem chegar à segunda Libertadores seguida em 2009. Quem sabe até com o bi-brasileiro, quem sabe.