Quarta-feira, Fevereiro 6th, 2008


 No próximo dia dez realizar-se-á o primeiro Bavi do ano. Se tudo correr bem durante a semana, os dois grandes clubes da Bahia se enfrentam disputando uma liderança temporária que, aparentemente, não possui valor algum. Desde o ano passado, Bahia e Vitória mostram sinais de que retomarão sem grandes problemas a hegemonia estadual quebrada pelo Colo-Colo em 2006 e passarão mais trinta anos dividindo as honras de campeão e vice.

Em teoria, chegam mais fortes para 2008: com Vitória na primeira divisão e Bahia finalmente conseguindo seu primeiro acesso dentro de campo, ambos deixaram para trás um ano em que o Bavi parece ter sido recuperado. O histórico placar de seis a cinco para o Leão da Barra ainda hoje é mastigado, contestado, exaltado.

Há, contudo, pontos negativos a serem considerados. Em primeiro lugar, o trágico acontecimento na Fonte Nova e a sua conseqüente interdição – todos estes fatos tenebrosos enfraqueceram o Baianão, que sempre teve como palco maior o decrépito estádio.

A outra preocupação surgiu após os oito primeiros jogos da competição: a dupla protagonizou momentos de horrendo futebol. Com péssimas contratações, péssimos planejamentos e péssimas atuações, Vitória e Bahia lideram, mas não enganam ninguém. Pelas ruas estreitas do recôncavo baiano, os vitórias já prevêem um novo rebaixamento e os bahias já se declaram contentes com uma permanência na Série B.

Após o Bavi, após a disputa de uma liderança ainda pouco importante, poder-se-á perceber se, de fato, o Bahia permanece no buraco do qual, acreditam os ingênuos, começou a se livrar ainda no ano passado e se o Vitória, cuja torcida já superou e varreu os confetes da festa do retorno à elite, terá capacidade e fôlego para outro título baiano e longos meses de uma guerra ingrata para a permanência na primeira divisão.

A cidade toda ainda está em ritmo de carnaval. Não só a bendita, mas todo o mundo está neste ritmo, algo intolerante com o trabalho e permissivo com qualquer diversão, pulo ou grito. Até eu mesmo, que sonho desde o princípio de minha existência com a quarta-feira de cinzas que traz consigo o fim da profana festa, estou nesta situação e o que é pior, algo agravada pela falta de assunto.

Os cidadãos que alimentam blogs de futebol, porém, fornecem-me alguma coisa. Vejo nos blogs de Juca Kfouri e de Victor Birner a discussão a respeito do rebaixamento ou não do São Paulo no Campeonato Paulista de 1990.

A característica mais curiosa e dramática do Brasil é a eterna nostalgia do cartório. De vez em quando, parece-me que a alma profunda do brasileiro clama por um Sr. Silva, dono do cartório que aparece de quando em quando para lavrar os livros de registros e de sempre em sempre para apanhar o dinheiro apurado. Se me perguntassem, eu diria que os brasileiros não esperam um salvador da pátria. No fundo, esperam apenas que alguém registre (a vinda ou a espera, isto é irrelevante) , tire duas cópias, autentique e reconheça a firma no documento cartorial.

Como já dito anteriormente, nas conversas de bares parece que já não importa tanto quem busca a vitória, quem se preocupa com a luta diária, com o duro caminho e as conquistas. Basta somente que alguém declare: “Clube de Futebol Zaramongas é o maior de todos os tempos”. E pronto, todos iriam atrás, zaramongueando. Mas, exagero, claro.

Voltemos à discussão sobre o São Paulo de 1990. Consta que o time treinado por Forlan tomou alguns sacodes que lhe renderam uma risível colocação. Consta ainda que disputando uma tal repescagem, o tricolor paulista não conseguiu pescar nada, sendo obrigado a disputar a tal série A2 em 91. No entanto, a tal série A2 dava uma vaga direta nas semifinais do Campeonato Paulista mesmo de 91, que acabou vencido pelo São Paulo Futebol Clube. Os Mozarts e Darwins e Salomões responsáveis pelo regulamento evidenciam mais um grande talento nacional, que é dificultar o entendimento das regras de um campeonato- hábito, aliás, não só brasileiro, mas no qual somos especialistas.

Discute-se infindavelmente, desde então: O São Paulo caiu? Foi rebaixado ou não? É o único clube paulistano a não ser rebaixado? E são dessas discussões absurdas, atemporais, estupendas. O Corinthians levou o Mundial de 2000? O Flamengo é o campeão brasileiro de 87?

Imaginemos a cena. Chega o Sr. Silva. Exausto após a Terça-Feira Gorda, vem buscar alguns caraminguás que tenham restado no caixa do cartório. Todavia, não obtém sucesso no seu intento financeiro. Verdadeira confusão está instaurada na porta do Cartório. Alviverdes, alvinegros e tricolores se engalfinham atrás de alguma declaração oficial que assevere: Tal time foi rebaixado. Aquele não foi.

E o Sr. Silva fica nervoso. Mexe em todos os seus documentos, em toda aquela insana papelada burocrática que só um homem atado a uma camisa de força pode reputá-la neutra. E há resposta?

Nos fabulosos regulamentos brasileiros, encontramos a Taça de Prata dos anos 80. Encontramos um campeonato em que clubes classificaram-se graças à renda obtida. Encontramos a Sodoma e Gomorra de 1993, que trouxe 12 clubes à Primeira Divisão e impediu a existência de Segundas e Terceiras Divisões. Encontramos clubes que não foram rebaixados graças ao Tribunal – sim, refiro-me, por exemplo, ao Botafogo que conseguiu mágicos pontos de uma partida em que foi massacrado por 6 a 1.

E, então, me pergunto: Qual a relevância de se discutir históricos de rebaixamento a esta altura? Muito mais proveitoso seria relembrar cotidianamente as tramóias acontecidas ao longo da história do futebol brasileiro. Não para culpar um ou outro time específico, mas para pensar na tolice que é essa tradição cartorial e no mal que faz ao futebol. Grandeza, competitividade, glórias, nada disso o Sr. Silva pode entregar. O máximo que ele pode fazer é entregar um documento, passível de ter sido fraudado por algum subordinado seu, ao qual ele não controla, muito menos deseja fazê-lo.

Encerrado o recesso de Carnaval – durante o qual os integrantes do Quem é a bola? permaneceram em conserva nos seus devidos barris de álcool – este digníssimo blog retorna à luta diária frente aos parvos da bola. Há quem diga que, durante o fim de semana, a esférica correu pela grama tanto no Brasil quanto nesta outra parte da orbe que chamamos Mundo – mas, francamente, não temos notícia a esse respeito. Como imaginamos que a massa boleira está cansada das metáforas carnavalescas nas matérias sobre a nobre arte (“O bloco do Náutico está pronto”, “No quesito harmonia, o Botafogo é nota… dez (com a devida e clássica voz da apuração carioca)”, “Mano Menezes, como um verdadeiro mestre de bateria, comanda o Coringão”, “Renato Gaúcho pede que a comissão de frente tricolor ensaie pra valer” etc.), trataremos de analisar a ala lusófona da Libertadores 2008, sem prelúdios ou eufemismos, apontando quem vai pra final, quem cai nas oitavas, quem será atropelado pela zebra da temporada e quem, além de ser rebaixado no Paulistão, vai sair na primeira fase da competição.

SANTOS

Ocupando uma honrosa zona de rebaixamento estadual, o Santos tem tudo para dar vexame em 2008 e ser eliminado precocemente. A rigor, nenhum grupo da Libertadores é difícil, mas o assombroso Cúcuta pode estar preparando mais surpresas continentais e o Chivas mora longe – todo cuidado praiano será tão escasso quanto o oxigênio em Oruro, cidade do San Jose, esquadra que completa o grupo santista. Ainda com dor de cotovelo pela saída de Luxa, o clube não se acerta e, conseqüentemente, o time é um despropósito absoluto: nenhum futebolista joga bem, Fábio Costa quer surrar alguém, todo mundo pede vergonha na cara, Leão continua ostentando orgulhosamente sua falta de sutileza, as jovens revelações flutuam entre o time profissional e o bolso dos empresários e, veja você, a maior contratação, até aqui, foi a de Betão – que até parece um bom rapaz, mas que nasceu para administrar empresas ou para fazer carreira na obstetrícia. Pelo que li desde que retornei do recesso, o Santos agora aposta em jogadores hispano-americanos que certamente conheceu via DVDs grosseiramente editados – nova mania brasileira considerada deveras saudável pela crítica especializada (chegaram Molina, Michael Quiñonez e Sebastián Pinto – que, além de enfrentarem o problema de adaptação, provavelmente jogam pedrinhas). É necessário lembrar, contudo, que um time recheado de falantes de castelhano não é certeza de boa campanha na Libertadores – se falar espanhol fosse sinal de sucesso na América Rebelde e Profunda, o Flu seria eliminado por um time colombiano de segundo escalão.

FLUMINENSE

Será eliminado por um time colombiano de segundo escalão. As Laranjeiras, desde a conquista da Copa do Brasil, só comentam, só sonham, só praticam, só desejam a Libertadores. Tudo foi planejado, traçado, calculado. É necessário falar espanhol? Contrata-se o Conca. É necessário fazer gol? Joga-se com três atacantes. É necessário raça? Renato Gaúcho se empenha num patético discurso sobre ser impiedoso (como se empatar com Macaé não fosse questão de incompetência, mas de dó). Não se pode negar ao Flu, porém, o reconhecimento de todo o seu potencial e talento: Thiago Silva, Neves, Dodô, Conca, Washington, Arouca, Cícero, Leandro Amaral – só estes já formam uma esquadra respeitável, temível (listando assim, lentamente, dá até vontade de dizer que compõem o melhor elenco do país). Mas o tricolor sente a falta de um bom goleiro e da rescisão de contrato com Gustavo Nery. Além disso, a campanha do pó-de-arroz neste seu tão esperado retorno à Libertadores pode ser atrapalhada justamente pela longa ausência do clube na competição. Faltam experiência, uns calos e umas manhas. Como esquecer que Dodô, na histórica derrota do Botafogo para o River Plate, ano passado, avisava ao banco de reservas que sentia-se incomodado por uma forte dor de barriga? Caso a nossa previsão de pouca longevidade do Flu na competição se concretize, diretoria e torcida precisam compreender que, trabalhando mediocremente como se deve, podem chegar à segunda Libertadores seguida em 2009. Quem sabe até com o bi-brasileiro, quem sabe.