A cidade toda ainda está em ritmo de carnaval. Não só a bendita, mas todo o mundo está neste ritmo, algo intolerante com o trabalho e permissivo com qualquer diversão, pulo ou grito. Até eu mesmo, que sonho desde o princípio de minha existência com a quarta-feira de cinzas que traz consigo o fim da profana festa, estou nesta situação e o que é pior, algo agravada pela falta de assunto.
Os cidadãos que alimentam blogs de futebol, porém, fornecem-me alguma coisa. Vejo nos blogs de Juca Kfouri e de Victor Birner a discussão a respeito do rebaixamento ou não do São Paulo no Campeonato Paulista de 1990.
A característica mais curiosa e dramática do Brasil é a eterna nostalgia do cartório. De vez em quando, parece-me que a alma profunda do brasileiro clama por um Sr. Silva, dono do cartório que aparece de quando em quando para lavrar os livros de registros e de sempre em sempre para apanhar o dinheiro apurado. Se me perguntassem, eu diria que os brasileiros não esperam um salvador da pátria. No fundo, esperam apenas que alguém registre (a vinda ou a espera, isto é irrelevante) , tire duas cópias, autentique e reconheça a firma no documento cartorial.
Como já dito anteriormente, nas conversas de bares parece que já não importa tanto quem busca a vitória, quem se preocupa com a luta diária, com o duro caminho e as conquistas. Basta somente que alguém declare: “Clube de Futebol Zaramongas é o maior de todos os tempos”. E pronto, todos iriam atrás, zaramongueando. Mas, exagero, claro.
Voltemos à discussão sobre o São Paulo de 1990. Consta que o time treinado por Forlan tomou alguns sacodes que lhe renderam uma risível colocação. Consta ainda que disputando uma tal repescagem, o tricolor paulista não conseguiu pescar nada, sendo obrigado a disputar a tal série A2 em 91. No entanto, a tal série A2 dava uma vaga direta nas semifinais do Campeonato Paulista mesmo de 91, que acabou vencido pelo São Paulo Futebol Clube. Os Mozarts e Darwins e Salomões responsáveis pelo regulamento evidenciam mais um grande talento nacional, que é dificultar o entendimento das regras de um campeonato- hábito, aliás, não só brasileiro, mas no qual somos especialistas.
Discute-se infindavelmente, desde então: O São Paulo caiu? Foi rebaixado ou não? É o único clube paulistano a não ser rebaixado? E são dessas discussões absurdas, atemporais, estupendas. O Corinthians levou o Mundial de 2000? O Flamengo é o campeão brasileiro de 87?
Imaginemos a cena. Chega o Sr. Silva. Exausto após a Terça-Feira Gorda, vem buscar alguns caraminguás que tenham restado no caixa do cartório. Todavia, não obtém sucesso no seu intento financeiro. Verdadeira confusão está instaurada na porta do Cartório. Alviverdes, alvinegros e tricolores se engalfinham atrás de alguma declaração oficial que assevere: Tal time foi rebaixado. Aquele não foi.
E o Sr. Silva fica nervoso. Mexe em todos os seus documentos, em toda aquela insana papelada burocrática que só um homem atado a uma camisa de força pode reputá-la neutra. E há resposta?
Nos fabulosos regulamentos brasileiros, encontramos a Taça de Prata dos anos 80. Encontramos um campeonato em que clubes classificaram-se graças à renda obtida. Encontramos a Sodoma e Gomorra de 1993, que trouxe 12 clubes à Primeira Divisão e impediu a existência de Segundas e Terceiras Divisões. Encontramos clubes que não foram rebaixados graças ao Tribunal – sim, refiro-me, por exemplo, ao Botafogo que conseguiu mágicos pontos de uma partida em que foi massacrado por 6 a 1.
E, então, me pergunto: Qual a relevância de se discutir históricos de rebaixamento a esta altura? Muito mais proveitoso seria relembrar cotidianamente as tramóias acontecidas ao longo da história do futebol brasileiro. Não para culpar um ou outro time específico, mas para pensar na tolice que é essa tradição cartorial e no mal que faz ao futebol. Grandeza, competitividade, glórias, nada disso o Sr. Silva pode entregar. O máximo que ele pode fazer é entregar um documento, passível de ter sido fraudado por algum subordinado seu, ao qual ele não controla, muito menos deseja fazê-lo. 