Sexta-Feira, Fevereiro 1st, 2008


Boa parte da mídia e da torcida brasileira reclamava a sua presença na seleção. Após três décadas de Cafú, o torcedor ficou assombrado com a possibilidade de Maicon como titular absoluto da lateral direita pátria. Léo Moura nunca foi esse jogador todo, mas é claramente mais técnico que o rapaz da Inter de Milão. Merecia convocação? Por certo. Continuará a ser lembrado nas próximas chamadas?

Não creio. Primeiro porque está óbvio que ele não jogará e, caso jogue, não se encaixará no “esquema” de Dunga. Sendo praticamente um ponta, recebendo o título de ala e deficiente na marcação, Leo Moura perderá para Maicon (e até mesmo para Daniel Alves) na parte física e no combate aos avançados rivais. Como costuma dizer Gerson, Leo Moura é constituído, basicamente, de pele e osso – o que traz a vantagem de não estar exposto às contusões musculares, mas que gera problemas nas trombadas, nos empurrões, nos abraços durante os cruzamentos na área, nas tesouras e em outras práticas pouco saudáveis e de baixo valor estético, mas necessárias ao futebol.

Além disso, Leo Moura é velho. Perdoem-me a franqueza, mas considerando os seus 29 anos, o rapaz já estará dedicando-se ao showball em pouco tempo – junto com Maicon, Gilberto Silva (que atualmente está se esmerando em constranger todo o Emirates Stadium nas suas atuações pelo Arsenal), Lúcio, Mineiro, Josué e toda essa rapaziada que costuma carregar o piano. Portanto, Leo Moura não terá nenhuma longevidade no escrete – mas, como muita gente costuma achar que uma convocação acaba servindo como prêmio para uma temporada acima da média, tá tudo dentro dos conformes. Só duvido que o futebolista vá se contentar em enfrentar a Irlanda e guardar a única camisa canarinho que ele usou na vida para leiloar mais tarde no e-bay.

Nesta história de convocação de Leo Moura, o que me chama a atenção – e o que passa despercebido à mídia de narinas de cadáver – é a maledicência, a esperta estratégia de Dunga para iniciar o lateral rubro-negro na sua tenebrosa teoria do sofrimento. Ciente da atração do jogador pelas festas populares regadas a tonéis de álcool, sexo desenfreado e pancadaria gratuita, Dunga quis privá-lo disso. Segundo as teses do melhor treinador de seleções do mundo, para chegar à seleção, o futebolista precisa passar por provações comparáveis às de Augusto Matraga – e, pior de tudo, a queda de Leo Moura, que chorará de saudades do Rio de Janeiro no exílio de Dublin, não será seguida de redenção nenhuma. No máximo umas 500 pratas pela camisa no e-bay.

Outro dia, conhecidos meus se digladiavam a respeito da grandeza de seus respectivos times. Um acusava o outro de defender uma vergonha que carregava um escudo, que o clube do outro não passava de amadores travestidos de camisas coloridas, verdadeiros charlatães da bola. Não foi uma discussão assassina, até porque esses homens gentis decidiram encerrá-la antes de maiores violências corporais.

Todavia, nem todo ser humano é exemplo de sensatez e não são poucos os casos de violência entre vizinhos, colegas de trabalho, casais apaixonados e mesmo entre o dono e seu cão de estimação geradas pelo amor a um time e sua colocação em um pedestal de grandeza, em oposição ao do outro, sempre diminuto, sempre inseto.

Geralmente conta-se os grandes do Brasil em 12. Inclusive, dizem os entusiastas de tal tese, seria mais um exemplo da “exceção brasileira” no desporto bretão: Além da habilidade, da malemolência e dos craques nascidos a cada posto de gasolina, a cada bola de meia, a cada campo de terra (ou lama) da Nação, além da Canarinho de todas as Copas, o Brasil teria uma quantidade de grandes clubes que não se acha em lugar algum da Orbe.

São apontados os 4 de São Paulo, os 4 do Rio, os 2 de Minas e mais os 2 do Rio Grande do Sul. Nordestinos exaltados poderiam incluir o Bahia. Ou melhor, torcedores do Bahia exaltados incluiriam seu clube. Pernambucanos, então, tratariam de… Ok, torcedores do Sport Recife já reclamariam da inclusão do Bahia e pleiteariam um lugar no Olimpo. Naturalmente, os rivais locais reagiriam a tais demandas com muchochos e desprezo, quando não com novas petições de entrada no Oligopólio (que com 15 clubes já não poderia ser mais oligo).

Mas falo dos nordestinos? E os paranaenses? Certamente coritibanos e atleticanos não se sentiriam contemplados. Até aí, descobriríamos novos pleitos Brasil afora. Realmente, a exceção nacional parece realmente exceptuada.

Esqueçamos nossa pátria, por ora. Pensemos no Idoso Mundo. Olhemos Portugal. Um desinformado jamais diria que há um campeonato ali e certamente reagiria surpreso a quem lhe dissesse que não há um triangular decisivo e um torneio com mais de dezena e meia de escretes disputando o título. A vizinha Espanha é ainda mais reduzida. Parece não haver dúvidas de que há 2 gigantes e há o resto. Na França alguém pode dizer que há grandes, mas certamente não há ali a proeminência que existe nos outros países. Deixemos a França para daqui a pouco. A Itália possui o Milan, a Juventus e a Internazionale, gigantes, espetaculares (inclusive em mutretas), e os outros jamais reclamariam a si o título de grandiosos. Contentam-se em buscar o seu devido lugar e comemorar alguma coisa fabulosa de tempos em tempos. E na Inglaterra, não resta dúvida que há 4 grandes clubes. Não resta? É aqui que começamos nossas investigações.

A noção de clube grande traria uma mistura de tradição (que é a história profunda, medida não somente em anos corridos, mas em títulos disputados e vencidos, em mítica construída e defendida, em influência ao redor do país, entre outros atributos inenarráveis, como a capacidade de impor temor ao adversário em qualquer circunstância), grande torcida e grandes conquistas. Fosse uma mera fórmula aritimética, seria fácil.

Vejamos o caso de um time em especial, o Bahia Esporte Clube. Venceu o Santos de Pelé em 1959, possui a maior torcida de um Estado razoavelmente populoso, uma massa de fiéis que tem o hábito de apóiar e freqüentar estádios causando certa impressão, venceu um Campeonato Nacional em 1988 e é o maior campeão do Estado. É grande?

Não responda ainda, leitor. Peguemos o caso do Coritiba. Os coxas-brancas têm 32 títulos estaduais, conquistaram o Brasil em 1985 e também têm a maior torcida de um Estado razoavelmente populoso. É grande?

“Ah, mas esses daí passaram um bom tempo na Segunda Divisão”. Imaginemos que a Juventus passasse 4 anos na Segunda Divisão. O time da Fiat deixaria de ser grande, leitor?

Sobre títulos nacionais, não esqueçamos do Hellas Verona, que sagrou-se campeão no já citado 85. E a Roma de Falcão, o Napoli de Maradona e Careca (sonho com esse Napoli sem nunca o ter visto jogar). Todos conseguiram seus títulos. E ao redor da Europa, de quando em quando aparecem outros times para abocanhar taças. O Chelsea, por exemplo.

Os azuis londrinos são grandes? Certamente possuem destaque hoje. Um destaque conseguido com dinheiro russo acima de tudo, é verdade. Mas quem se atreveria a dizer que não há certa grandeza no Chelsea hoje?

Voltemos à nação de De Gaulle. Hoje, é melhor falar em nação de Carla Bruni, ainda que ela não seja francesa. Há um grande na França? Certamente o Lyon impõe algum respeito em suas terras. Mas há sete anos quem consideraria Lyon e Chelsea grandes clubes? Não é o Saint-Etienne o maior campeão francês? A maior torcida não é a do Olympique? Quem fala no Saint Etienne hoje?

Novamente nosso país. Como dito antes, há uma obsessão brasileira pela grandeza declarada. Um sentimento herdado da Colônia, talvez. Mais do que viverem a luta árdua e o por fazer, os brasileiros parecemos destinados a lutar por declarações. A tolice do “Penta Único”, e do “Campeão Mundial de 51″ são aspectos deste caráter nacional.

Se mesmo na Europa, há problemas para falar o que é grande, aqui, a discussão sobre a grandeza ou não de um clube não faz muito sentido, uma vez que grandes fases são transitórias, as torcidas maiores não necessariamente são as mais fiéis e que impor medo ao outro é muito mais decorrência de fases (inclusive de ambientes internos e relação com a torcida) do que qualquer outra coisa. Claro, o dinheiro influi de forma assombrosa. Os casos europeus são evidentes exemplos de que é possível construir fases duradouras e evidenciar vantagens na comparação com outros times – só que isto também não acontece aqui (Quando muito, os aportes de investimento não duram tanto).

Além do mais, regulamentos pouco óbvios, que possibilitavam ao time que mais venceu durante a temporada  ser arruinado em alguns minutos decisivos, nosso tamanho continental, que até hoje fomenta (ou dá pretexto a) a disputa de campeonatos estaduais (fonte de títulos), entre outros fatores, serve de base às nossas conclusões, bastante frágeis. Inclusive, peço ao leitor desculpas por tantas palavras para tamanha fragilidade. Enfim, são nossas considerações:

1- No futebol, a grandeza é construção constante e passível de ser incendiada com o passar dos anos;

2- Mesmo na Europa, há situações-limite em que é difícil apontar a grandeza ou não do time;

3- No Brasil, é difícil falar em grandeza (ao menos em padrões europeus, como sinônimo de hegemonia, de evidente predominância de poucos times sobre outros), porque o país é muito grande e  não há um time que consiga manter-se no topo nacional sempre (avaliando que o Brasil é mais do que os campeonatos paulista, carioca, mineiro, gaúcho, baiano e paranense) ;

PS: Ainda há uma questão a se falar. A imprensa noticia mais sobre os clubes de maior torcida, porque essa consome mais o produto oferecido pela mídia. Naturalmente, estes times ficam mais expostos, e acabam obtendo vantagens em apoiadores/ audiência e conhecimento, além da mais nociva vantagem de todas, que é a influência na organização dos campeonatos, gerando viradas de mesa e trambicagens malandras como as de 93, 97 e 00.