
Jogadores caçados a pauladas, cantos incitando o linchamento, escudo policial para aparar pedras, futebolistas fraturados, arrastando-se em campo e, ainda assim, com forças para mirar seu soco inglês na nuca adversária. Em 1961, o Independiente de Santa Fe, da Colômbia, teve seus quatro defensores decapitados – e suas cabeças, a mando do Peñarol, percorreram a América sobre bandejas (uma clara tentativa de intimidação que, por sinal, lhe rendeu mais três ou quatro títulos).
Inicia-se hoje, portanto, mais uma edição da Libertadores da América. Claro: é ainda uma fase pré de uma competição que, a rigor, só empolga a partir das oitavas de final (salvo quando um grupo reúne esquadras fortes e tradicionais – caso de Inter, Velez e Nacional no ano passado). Amanhã é a estréia brasileira – o Cruzeiro enfrenta o Cerro Porteño, time que a imprensa adora classificar como “experiente”, “tradicional”, “chato” mas que, na realidade, tem o Tigre Ramirez como atacante (mas, ei, o Cruzeiro tem Fábio como goleiro!)
Esta edição tem tudo para seguir a mesma tendência que, desde 1992, só foi quebrada duas vezes: o título fica com Brasil ou Argentina (no mesmo período, o título da Liga dos Campeões rodou por cerca de sete países). Por mais que torcedores não-envolvidos na disputa (como os do Bahia ou do Santos) rezem pelo aparecimento de algo tão inexplicável quanto um Once Caldas ou por uma final tão insólita quanto um Olímpia x São Caetano, é muito difícil que uma zebra equatoriana derrube Boca Juniors ou São Paulo (o Fluminense é a provável vítima da temporada).
Recordem-se que, ano passado, um assombroso Cúcuta saiu do interior colombiano surpreendendo o continente, eliminando o Nacional, vencendo o Boca Juniors – mas, por fim, sendo eliminado no melhor jogo daquela edição: com Buenos Aires soterrada por uma névoa espessa, Riquelme liderou um concerto que, a certa altura, pela TV, era filmado na altura do chão, pela linha de fundo, sem visibilidade alguma – até que, do mais absoluto nada, surgiu a figura de Palermo dispersando a névoa da grande área com uma bicicleta digna de um hibridismo natural entre Leônidas e Dadá Maravilha. Naquele momento, Palermo foi quase um Mastroianni dirigido por Fellini.
Ainda que avacalhada na organização (vide o caso dos times mexicanos provocando constrangimentos e os jogos em que as equipes abdicam da saudável violência sulamericana – privando o torcedor, por exemplo, da “boa e salubre cabeçada brasileira” ou do rabo-de-arraia na versão uruguaia) e restrita basicamente a dois únicos países, a Libertadores da América preserva interesse, arte, charme e provoca uma volúpia no cidadão latino-americano que só encontramos semelhante no torcedor do Baré que segue o Roraimensão.