São admiráveis os torcedores de times pequenos. Refiro-me aos torcedores de fato. É muito natural e seguro sair pelas ruas sob um uniforme do Juventus, do São Christóvão, do Leônico, do Fluminense de Feira ou dos Américas: além de ostentar belas camisetas, há sempre a segurança de chegar em casa e acompanhar o seu amado time grande goleando um esquálido clube do interior – um daqueles em que todos os futebolistas ainda usam chuteiras negras.
No futebol europeu, o time perdedor é vital. Considerando que, na maioria dos países, de duas a quatro equipes disputam os títulos nacionais, necessita-se de uma legião de clubes derrotados para que, afinal, haja a possibilidade do campeonato. É semelhante ao caso dos “nossos” Estaduais. No Brasileirão, contudo, a necessidade e a presença do pequeno é rara e, até mesmo, indesejável. Óbvio que clubes como Vitória, Figueirense, Goiás, Náutico e Portuguesa, para citar alguns, não são exatamente modelos vitoriosos no país, mas cada um deles possui uma considerável hegemonia em seus territórios (no caso da Lusa, bem menos). Portanto, não são os verdadeiros times pequenos.
Não são como o Fluminense de Feira, que não conquista o título baiano desde 1969 e que, na atual temporada, decidiu correr um sério risco de rebaixamento. O Touro do Sertão possui uma das tradições mais derrotadas do futebol mundial. Só para ilustrar, na decisão do Brasileirão da Série C, em 1992, o time chegou à final e, já passados os quarenta minutos, vencia a Tuna Lusa – que, em em poucos instantes, correndo por entre jogadores feirenses aos prantos, ajoelhados em agradecimento pela vitória já consagrada, virou o jogo e conquistou o título.
O time pequeno não consegue conviver com a possibilidade da vitória – se vence, ele pára de fazer sentido e sua torcida se perde numa crise de identidade que pode levar à extinção física ou espiritual do clube (a Bahia está repleta de casos de pequenos que ousaram vencer além do aconselhável e, em seguida, desapareceram do mapa ou agonizam nas divisões de acesso: Guarany, Galícia, Leônico). Naquele ano de 1992, na consagração do Flu de Feira como perdedor, ainda nem existia o direito de acesso à Série B, mas uma conquista nacional talvez servisse para macular a fama perdedora do clube.
João Cabral, poeta maior, compreendeu bem (e aceitou elegantemente, dedicando-se ao América F.C., de Recife) a sina do clube menor. No seu poema “O torcedor do América F.C.”, reproduzido a seguir, reúne em oitos versos não uma homenagem aos seus iguais, sofredores que seguem caninamente um time pequeno, mas uma explicação aos que, como eu (e provavelmente você), não entendem esta dedicação, esta euforia pela qual é acometido um homem que vê seu time simplesmente diminuir uma derrota que seria de dois a zero para dois a um, aos quarenta do segundo, última rodada do Estadual, já rebaixado e cumprindo tabela contra o campeão, o fútil e fácil time grande.
O torcedor do América F. C.
por João Cabral de Melo Neto
O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.
Luciano do Valle é o homem que me apresentou Porto de Galinhas. Em meus delírios pueris, antes que eu soubesse que ele era o número 1 da Globo na fatídica derrota de Sarriá, antes que eu imaginasse que havia algo além do “canal do esporte”, Luciano do Valle fazia-me sonhar com Porto de Galinhas. Em meio a um passe de Jura, uma tesoura de Júnior Baiano, um fundo de 100 ou 500 metros do Filho do Vento, Luciano vinha deslumbrar-me com a água transparente, os mergulhos inesquecíveis, a areia inusitada, o povo feliz, quando os gols tornavam-se irrelevantes, narrados no replay. O que era um gol diante de Porto de Galinhas?



