Preciso me lembrar, todo santo dia, de não me tornar alguém amargo- principalmente no que diz respeito às coisas do futebol. Sim, amigos, a luta diante dos fatos é árdua e a cada etapa, é preciso encará-los, respirar fundo e caminhar.

Explico. Aqui e ali escolho times para torcer. Não para acompanhar a todo o tempo,do início ao fim dos tempos, mas para naquele momento específico do embate, ter uma preferência. Geralmente escolho o mais fraco. Por mais fraco, entendo aquele que ganhou menos ao longo da história, aquele que garante os maiores sofrimentos aos seus adeptos, o que é furtado, assaltado e até mesmo operado pelos homens de preto, o que sempre há de perder aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, num lance duvidoso, em meio a uma vibração intensa de sua torcida. O time pequeno é o verdadeiro sobrevivente do futebol, pois resiste a intermediários malandros, a diretorias inescrupulosas, a um público pífio, com renda tétrica, sem ter suas aventuras bem cantadas nas ondas de transmissão.

Mas por que falo dessa via crúcis futebolística? Vejam vocês o que se passou ontem na final do Campeonato Argentino. Huracán, um dos antigos grandes do futebol, grande campeão da era amadora, somente um título na era profissional, finalmente o Huracán se aproximava de um título, após tortuosos caminhos na segunda divisão. Bastava um empate e a história parecia mágica: mesmo contra um gol erroneamente anulado, contra uma tempestade de granizo, o furacão conseguia seu empate na casa do adversário. O título era seu, até o momento trágico já nos estertores da partida, quando o jogador do Vélez faz a falta e o gol necessário à sua vitória. Pronto, estava encerrada a magia.

Isto é suficiente para minhas tragédias? Não. Basta observar o Campeonato Brasileiro. O time que eu escolhi (ou me escolheu), o São Paulo, decidiu encenar a mais dramática das histórias. Após meses de futebol horrendo, embarcou numa aventura de adaptação que parece mais entediante ainda- é um time sem imaginação, sem vontade, que não transmite a mínima expectativa a quem o vê jogar. Ora, vocês dirão, isto é despeito de quem vê seu time em tragédia.

Não, colegas. Não por isso. Assisto a Libertadores e o que vi foi um Grêmio sem sentido ou direção (i.e., aquele domínio estéril sem chances de vitória) e uma torcida que gritava num castelhano entre o apaixonado, o esquisito e o lamentável- o lamento da torcida, digo. Do mesmo modo, o Internacional não conseguiu oferecer resistência ao sólido Corinthians- e definitivamente, preciso refazer minha impressão sobre Mano Menezes.

Vejo o espetáculo madridista em torno de C. Ronaldo e Kaká e sinto somente a vontade de dormir e esperar que o time comece logo a jogar- algo ressentido, há uma parte de mim que torce para que o time fique em nono lugar, após o Bilbao, Sevilla, La Coruña, Atlético de Madrid, Villareal, Tenerife, Zaragoza e Barcelona (ou quaisquer outros).

E por aí, vai. Fico a me lamentar e torcendo para não me tornar um oitenta-e-doitista, torcendo pela volta de Telê e saudando o tempo de Zico, quando alguma coisa surpreendente podia acontecer- há momentos em que é melhor calar e esperar pela empolgação- essa é a luta contra o ressentimento, o mais daninho vício de personalidade.

O ser humano não é um golfinho, um bonobo, uma abelha ou, vá lá, um pé-de-cebola, em razão da moralidade. Como diria um alemão, o ser humano é um ser moral. Sigamos na minha especulação absurda. Pensemos na pornografia. A pornografia é o que é, pelo sexo, pela pura e visceral exposição de membros sexuais em ebulição? Claro que não, colegas. A pornografia só é o que é pelo pudor. É o choque, é o pavor, é o espanto- e o prazer decorrente do conflito com tudo isso, o prazer da repressão que torna possível a existência da pornografia. Sexo por sexo, bonobos fazem, de forma marota e pouco ortodoxa. Mas o que eu devo falar mesmo?

Calma, leitor. Você, tomado de surpresa e espanto, pode pensar que este espaço transmudou-se de um campo sério,  futebolístico para adentrar as artes do corpo e da carne. Mas, não, pode acalmar-se. O que eu devo, e digo mais, tenho de, e digo mais, irei falar, diz respeito às teorias morais.

Como o ser humano é um ser moral- e mesmo o mais facínora dos gângsteres, o mais impudendo dos desgraçados incorrem nesta sina- ele passa a criar teorias e idéias a partir das suas situações da vida, de maneira que seus atos sejam justificados. Assim, o mais canalha dos pulhas há sempre de arrumar um argumento para seus atos.

Prometo que entro no futebol neste parágrafo. São muitas as aplicações da teoria moral no futebol. A todo tempo, todos estão tentando racionalizar seus atos. Mas a arte mágica ludopédica é tão grandiosa que revela cruamente a natureza humana: e estão na ciranda, dirigentes, torcedores, jornalistas, jogadores e técnicos, vibrantes, a desfiar um rosário de argumentos, hipóteses, situações eventuais e o que mais for, tudo no bom sentido de tornar explicável sua prática.

Os recentes casos das diretorias são-paulina e palmeirenses são claros. A utopia dos cartolas brasileiros é a de soarem modernos, europeus, executivos inteligentes e antenados com a moderna administração. Isto, propagado no céu, no mar e na terra e por nossos colegas da imprensa, quase ilude os pobres torcedores a respeito da qualidade dos gestores do futebol brasileiro.

Após uma derrota frustrante para o Cruzeiro e um semestre tétrico apresentado pelo São Paulo, a diretoria chutou o Preto Velho, Muricy Ramalho e trouxe um galante Ricardo Gomes, direto das charmosas ruas de Mônaco para o pretensamente parisiense ambiente do Morumbi. Está claro que a diretoria do São Paulo entende que o clube pode mais do que o tri brasileiro alcançado. Nisso, não está sozinha. Está claro que a diretoria não engoliu a eliminação para times brasileiros (embora, mais uma vez, o time que elimina o São Paulo esteja na final da Libertadores). Não está evidente, para a diretoria são-paulina, porém, que ela pode cometer equívocos e que a tão decantada estrutura tricolor não trouxe títulos que não os estaduais para o clube no período compreendido entre 1995 e 2004.

Enfim, toda aquela conversa de não submeter o time a avaliações imediatas de resultados, enfim, era palavrório flácido para acalentar bovinos.

Do mesmo modo, a diretoria palmeirense. A insatisfação com Wanderley (Vanderlei) Luxemburgo era enorme, a ponto de se especular dia sim, dia também, se a multa rescisória seria paga, de modo que o contrato fosse terminado antes do dia último estipulado. Os resultados (medianos para fracos, não tão incompatíveis com o time, embora discrepantes do preço pago pelo treinador e sua comissão técnica) não contentavam o Palmeiras, cujos dirigentes fizeram questão de manter Luxemburgo no começo do ano. O que se precisava era de um pretexto.

E a história de Keirrison foi um belo bode expiatório. Um bode magrelo, com as costelas à mostra, mas ainda assim belo, pela marotice argumentativa. Quebra de hierarquia por aplicar uma sanção a um jogador, cujo afastamento para negociação não foi explicado por ninguém. Enfim, enfim. Precisamos de teorias morais, de justificativas para nossos atos.

Outro dia, soube de um homem que bateu em outro, no meio da rua, sem razão alguma. Precisava de um motivo, um excludente, algo que dignificasse sua conduta. E então ele passou a berrar aos quatro cantos: “Te esmurrei para te salvar! Não fosse esse murro, você estaria morto.” E saiu, sem que ninguém o questionasse. Há quem diga que a vítima, compadecida, murmurou um “muito obrigado” e até verteu uma lágrima. (mais…)

Concluir uma graduação é preciso. Por este mui nobre motivo, o blog ficou suspenso nesta primeira quinzena de junho. Mais um pouco e as coisas voltam ao normal.

Saudações,

O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

O homem atual é guiado pelo resultado, não é dado a contemplações, banalidades reflexivas ou, como diria um amigo, não é cheio de nove-horas. Tal qual em uma comunidade de galinhas, na qual pouco importa as habilidades em ciscar ou a sapiência no uso da moela, o que determina o homem hoje é o resultado, o produto final, o ovo. Sem pôr seus ovos regularmente, industrialmente, o homem não é nada.

E isso também é verdade no futebol. Mais: Isso é uma verdade superior no futebol, mais verdadeira do que no resto da existência. Para os treinadores, então, o resultadismo é uma doxa inabalável, a doutrina dos milênios e dos seiscentos. Como diz o outro, o jogo é jogado e há aqueles que conseguem sobreviver em meio à granja do dia-a-dia. É o caso do neerlandês Guss Hidink.

Os trabalhos deste rapaz dos Países Baixos chamam alguma atenção: Austrália, Coréia e Holanda nas últimas Copas do Mundo, a Rússia deste pré-2010, PSV nos píncaros da Europa, enfim, enfim, o homem é dono de resultados de respeito. Fosse uma galinha, seria de ovos dourados ou melhor, seria uma galinha que põe ovos de Fabergé.

E não à toa, Hiddink parou no Chelsea pós-Scolari. A atuação do time nas partidas contra o Barcelona demonstraram as bases da atuação do treinador: Pragmatismo até a medula, até o limite extremo. Na Catalunha, isso implicou um time acuado, apertado pelas circunstâncias de um time ofensivo, porém estéril. O Chelsea desistiu do jogo no Camp Nou e quase arrancou uma vitória num vacilo da zaga culé.

Em Londres, porém, a estratégia já não era a do ferrolho. Era alguma coisa arriscada também, ainda mais quando Essien abriu o placar num pombo sem asa fundamental logo no início do jogo.  Hiddink armou um Chelsea com contra-ataques insinuantes, mas que ao mesmo tempo abria seu campo ao jogo do Barcelona. Era uma estratégia, digamos assim, malandra. Enquanto o time inglês conseguisse permitir que o domínio blaugraná fosse inócuo, pouco efetivo, estava tudo ótimo. Ainda mais se o time acertasse alguns contra-ataques, que dariam a chance de encerrar a partida.

Havia um problema nesse esquema, porém. Primeiro, se faltasse alguma coisa aos contra-ataques. E faltaram. Drogba e Anelka sempre erravam alguma coisa no momento final. Segunda questão, se o juiz fosse um parvo. E era. Ao menos dois pênaltis não foram marcados- o que explica o ocorrido, pois não se anula a expulsão ridícula de um defensor do Barcelona que parecia a ruína do time. E, por fim, se aquela inefetividade ofensiva catalã acertasse uma única vez que fosse. Iniesta cumpriu essa parte, no finzinho da partida.

Em futebol, um minuto é suficiente para que ouro vire gema. E o pior, gema velha e estragada. Em dois confrontos que entregaram menos do que nossa mente idealista poderia imaginar, um lance fortuito arruinou a estratégia de uma senhora galinha, digo, de um senhor treinador. E Avram Grant continua sendo aquele que mais perto chegou do sonho de Abrahmovic.

Balaço nos ovos de Fabergé

Balaço nos ovos de Fabergé

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Por falar em promessas, profecias e decepções, nada pode ser mais triste do que o confronto entre Arsenal e United, também pelas semifinais da LC. Não pelos comandados de Fergunson, que voltaram a demonstrar a efetividade suíça, digna dos melhores relojoeiros do globo, com uma atuação suprema de Cristiano Ronaldo, rapaz que vem destruindo minhas últimas resistências em relação a seu poder de decisão, mas sim pelo time londrino.

Está claro que o druida Arsene precisa fortalecer o time para o próximo ano. Sim, o escrete continua agradável e faceiro, mas é preciso mais do que jogo bonito para avançar. Se antes havia Pires, Henry, Vieira e mesmo Gilberto Silva, hoje o time parece ressentir-se de algumas peças que permitam a evolução que todos esperamos. Ano passado, o time demonstrava mais ímpeto ofensivo e um caos na defesa. Hoje, o time perdeu um pouco daquela vocação (muito embora Arshavin indique potencial para mais), sem recompor a proteção da mesma maneira.

personalidades-governantes-cuba-fidel-castro-discursando-20071A vida de quem acompanha futebol é difícil e sacrificante. Vejam vocês o meu caso. Passo dias,  noites e madrugadas elucubrando acerca do mundo da bola, criando teses, dissertando, perorando às muriçocas desta primeira capital do Brasil sobre isso e aquilo. Aí me pergunto: Tudo isso para quê? Para quê, se na semana seguinte, ou melhor, no jogo seguinte, todo o discurso, toda a cantiga será derrubada, tal qual uma águia mítica do oeste americano- ou uma arara-azul do oeste brasileiro.

E digo isso em termos abstratos, teóricos, amalucados? Não, não. Digo isso porque aconteceu comigo. Vejam só, bom peregrino que sou, já me preparava para pedir desculpas a Mano Menezes e reconhecer seu mérito na formação do Corinthians- um time de futebol eficiente, aplicado, bem distribuído em campo e tentando soar simpático,  quer dizer, menos antipático que o Grêmio de Mano Menezes, mas ainda assim um tanto antipático.

Pois então, eu já declamava meu canto, quando percebo o placar parcial na Arena da Baixada: 3 a 0. Geninho era o maestro do sacode e Rafael Moura o centroavante-chefe do CAP. Ora, senhores, meu discurso ia por água abaixo, esvaia-se feito a água da Pedra do Cavalo em tempos de El Niño.

Preferi acompanhar, então, a jornada sofrida do Palmeiras, com um a menos, fora de casa, etc.,  e era a hora de criar o texto dos apesares- o Colo-Colo ganharia, apesar de covarde. O Palmeiras perderia, apesar de ter sido considerado o melhor time da galáxia no começo do campeonato paulista. (Paro e penso como  é engraçado como esses jogos da última rodada da Libertadores vêm sendo levados em banho-maria- ou num ritmo normal- até os minutos finais, quando uma verdadeira coqueluche toma o mundo. Vejam só o pobre Universitario de Lima que contente com seus 2 licuris que tomava do San Lorenzo morreu ao tomar notícia do gol do San Luís nos estertores da partida contra o Libertad).

Quando o texto dos apesares estava pronto e algumas muriçocas já vibravam de emoção- pude sentir isso na pele- Cleiton Xavier me acerta um pombo sem asa e transforma os colo-colinos como nem Augusto Pinochet faria.  Minutos antes, o Corinthians encontrava 2 gols e aniquilava  minhas pretensões de seguir falando mal dos times de Mano Menezes- teria de voltar ao tema de antes do jogo.

Mais cedo, no continente em que o mais reles ladrilho tem 4000 anos de estrada, Manchester United e Arsenal pareciam fazer um jogo frenético e matador, e a se tomar pelos primeiros 15 minutos teríamos um duelo épico, de fazer Cecil B. de Mile gritar nas catacumbas. Pois não foi o que aconteceu. Traindo mais uma vez este feitor de teses que vos fala, o jogo foi de gato contra rato. Um Arsenal acuado somente sentia o domínio do United- e é incrível como Almunia foi um goleiro gigantesco ontem. E traindo qualquer obviedade textual, semântica ou gramatical, terminou em 1 a 0, mirrado, mirrado.

É bem verdade que este 1 a 0 foi melhor do que o placar vazio do dia anterior em Barcelona, no qual o Chelsea jogou como um time da sétima divisão inglesa, envergonhando o mais escroque de seus torcedores, ao passo que os culés não conseguiam desenvolver maiores qualidades redacionais- e Messi parecia um caudilho com um esforço descomunal para uma atuação inócua.

Há dois tipos de pessoas. Existem as reflexivas, que meditam milhares de anos e pode-se dizer até que elas ruminam seus atos, que acabam por se concretizar lentamente, embora com um grau de perfeição não tão próximo àquele esperado, ao divino.

De outro lado, há aqueles dados a ação. Um comunista diria e expeliria seus perdigotos revolucionários de uma outra maneira: Ação direta. E referendada, talvez. Este cidadão, ativo, está menos preocupado com filosofias (ou filôzufias, como diria um soteropolitano da gema, i.e., de uma época anterior à tentativa de transformar Salvador em uma sub-São Paulo), e mais dedicado à prática, às coisas concretas da vida.

Claro, a divisão não é estanque. Claro, o prático sempre há de teorizar alguma coisa, afinal, ele não é uma barata. E isto já é dito há tempos, desde um Anaximandro, um Anáxagoras, um Plato, um Ari.

Porém, contudo, todavia e entretanto, divago, derivo e quase degenero. Tenho de falar do São Paulo Futebol Clube. Há dois jogos-chave na temporada tricolor para definir o que vem acontecendo pelas bandas do Morumbi, ambos contra o Corinthians. O primeiro, o empate em 1 a 1, válido pela primeira fase do Campeonato Paulista. Ali, a despeito do resultado, o São Paulo apresentava-se numa jornada aparentemente promissora. Ora, um time reserva, indicativo da suposta missão deste 2009, que era a priorização da Taça Libertadores, num clássico, jogando melhor, com alguma variação tática e técnica, todos esses aspectos mostravam que uma bela temporada se avizinhava ao clube.

Muricy e Telê discutindo esquemas táticos

Muricy e Telê discutindo esquemas táticos

Vejam que o São Paulo de Muricy (ao menos, desde 2007 e numa constante evolução no mesmo sentido) é um time que inspira mais pela educação rochosa, pela disciplina dos jogadores, pelo empenho físico, tático, antropoludopédico, pelo afinco com que ensaia jogadas, com que executa cruzamentos, enfim, é um time aristotélico. Ou, para seus detratores, é um time de escola técnica. Ou, ainda pior, um time de apertadores de parafuso num cenário em que o ideal seria o sonho.

Ah, o sonho. O sonho de que pintaria um grande São Paulo no primeiro semestre foi caindo e derretendo ao longo dos dias. Aqueles reservas promissores tomaram um sacode inexplicável do Mogi-Mirim, o que fez Muricy repensar sua estratégia de prioridades.

Como diz o outro, e ele está todo errado? Não, não está, se a diretoria não lhe deu segurança-e se os próprios reservas não deram demonstração de que iriam além, pois do contrário, seria o pescoço do sr. Ramalho que estaria em risco. É só olhar o que aconteceu com o Grêmio nas bandas do Rio Grande meridional. Ah, mas tricampeonato brasileiro, pererê, pão-duro, etc., vocês dirão.

E eu responderei: justo, justíssimo. Mas isso não é suficiente, não para o São Paulo, e é só ver as declarações de um Leco, os comentários de torcedores internet afora, para saber que em futebol, sempre se quer mais- mesmo que para isso, sejam utilizados meios inequivocamente piores e que não levarão a planícies mais belas.

Nesse embalo, o São Paulo deste começo de ano vem apresentando um futebol tristonho, agravado pelos problemas defensivos, o que culminou em uma derrota cruel no domingo passado, contra o mesmo Corinthians. Não que o time de Muricy não buscasse o jogo, buscava sim. A questão é que não achava jogo algum. E nisso, o time de Mano Menezes foi muito competente, executando os gols quando puderam ser executados.

São esses próximos 15 dias entre o jogo de domingo passado e a Libertadores, já nas oitavas, que mostrarão até onde as ambições são-paulinas podem chegar no primeiro semestre: se ao céu ou à terra.

Ps: Desculpas pela demora em atualizar, mas alguns perrengues impossibilitaram que este texto (da semana passada) viesse ao ar.

Por increça que parível, como diz o poeta, já estou mais do que acostumado com autocratas incorrigíveis. Sim, colegas, e isto acontece nestes tempos democráticos, de paz, amor e ódio (ao menos declarado) ao arbítrio e à violência, o hábito de conviver com gigantes descomunalmente esmagadores tais quais morimbundos, digo, marimbondos maranhenses, formigas tornadas pobres vítimas e homens ordinários bravos, porém derrotados.

Vejam só o caso dos Estaduais. Sabemos que, desde os tempos ancestrais, tais torneios acabam por servir à lógica da humilhação do vintém pelo milhão, do esforço pela qualidade, etc, etc. E, no entanto, como dois e dois são quatro, a época de suas semifinais ganha uma relevância fabulosa. Claro, o clássico assassino, as eliminatórias tensas e cruéis, isso ganha uma dimensão extratática, extratécnica e, quem sabe até, escalafobética. E nessa toada, todos nós gritamos, nos mobilizamos e esquecemos dos regulamentos ridículos, que obrigam clubes a jogarem 19, 20, 25 jogos em 2, 3 meses.

Mas não podemos ser estraga-prazeres.As batalhas deste domingo, seja a travada entre Corinthians e São Paulo, Botafogo e Flamengo ou Fluminense de Feira e Bahia, todas elas trazem consigo a potencialidade cósmica que os grandes momentos de decisão possuem. E é nisso que devemos nos fiarmos para acompanhar estes jogos, mesmo que o duelo do Morumbi prometa mais defesas trancadas e bolas paradas do que futebol genuíno ou que no Maracanã possamos ter mais momentos engraçados na arquibancada do que um tratamento respeitoso à senhora pelota.  caxumba1

Claro, estes jogos não consertarão o nó do desenvolvimento futebolístico do país, i.e., dar sentido e permitir que os times pequenos e/ou do interior continuem a existir e evoluam de forma mais ou menos pujante. Aliás, a contradição essencial dos Estaduais é esta: única possibilidade de existência e atividade da maioria dos times do interior ou do Brasil profundo, não se apresentam como saída viável, tanto do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da saúde desportiva.

Se num Estado classe A do futebol como São Paulo, o Guarantiguetá outrora sensação torna-se um fracasso no ano seguinte, num Estado classe média (baixa?) como a Bahia, a atuação dos times do interior é uma incógnita a cada ano, a depender de investimentos aleatórios, enquanto nas fronteiras do mundo da bola brasileiro (pense num Espírito Santo, num Mato Grosso do Sul), os vencedores de ontem (Desportiva, Comercial) hoje não passam de pálida sombra ou fracasso evidente.

Esse mal-estar há de ser esquecido amanhã e nos próximos finais de semana decisivos. Mas há de perdurar durante todo o resto do ano, como um fantasma ou uma caxumba, a nos oprimir o cérebro, o queixo e nossas partes pudendas.

Leia também: Para que servem os Estaduais?

Preciso lembrar de usar personagem no seu gênero correto, o feminino. Preciso lembrar de adequar uma semana certa do ano ao personagem da semana. E preciso comprar o pão. O leite. As frutas. Imaginem vocês, amigos, que isso é a opressão do dia-a-dia. E é esta opressão diária, rotineira, contumaz e cruel que acabará por ocupar inevitavelmente a mente de Rogério Ceni, nossa personagem da semana.

Claro, vocês vão me dizer, diligentes e toda prosa, que Rogério vive o São Paulo 24 horas por minuto, 30 dias por semana. E não discordarei. Acompanho Rogério desde o Expressinho que venceu a Conmebol, desde o seu primeiro gol contra o União São João de Araras. E paro aqui para saudar o União São João de Araras e  o estádio que mandava seus jogos, o Hermínio Ometto. Às vezes, tenho a impressão de que o Hermínio Ometto é o primeiro resquício de memória do futebol que tenho. Saudação feita, volto a Rogério.

rc-verticalFalava da argumentação de vocês, que Rogério irá se dedicar a todo momento ao seu retorno, triunfal, majestático,  ao tapete verde. Claro, isso é verdade. Mas é inevitável o pensamento da rotina opressiva. A hora e meia que Rogério passaria pensando em chutes, possibilidades de jogada, a hora e meia anterior, a hora e meia posterior, integralmente dedicadas ao jogo, numa espécie de cerimonial profissional, isso não será possível a Rogério Ceni.

Ao longo de talvez 4 ,talvez 6 meses, a mente do arqueiro será ocupada de forma indelével, pela rotina, pelas coisas ordinárias da vida. Sim, porque o gramado cruel há de machucá-lo pela lembrança da distância de não estar naquele mundo apartado de sonhos que é o futebol, e nesse minuto, será inevitável a Ceni inundar seus pensamentos com qualquer opressão menos dolorosa: o pão, o leite, o problema com o chaveiro, etc.

Não mais as cobranças de faltas e pênaltis, não mais as defesas espetaculares, não mais a preocupação (que na semana passada foi freqüente) com a granja indesejável ou mesmo a gozação dos rivais e a crítica dos jornalistas por essas falhas. Ao menos por meio ano.

Pela dor do afastamento, que é uma contingência da vida de todo atleta e por sua semana curiosamente macabra, Rogério Ceni é o personagem da semana.

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